Uma Mostra que Revela Desafios e Esperanças em Territórios Indígenas
Na última segunda-feira (27/4), a Fiocruz Brasília deu início à exposição “Sopro Humano: Yanomami e Ye’kwana sustentando a terra-floresta”, que traz à tona a crise enfrentada pelos povos Yanomami e Ye’kwana. Combinando dados alarmantes e imagens impactantes, a mostra revela não apenas números, mas um território em disputa, vidas marcadas por violações e uma resistência que se mantém firme diante das adversidades.
A exposição se destaca por transformar diagnósticos e evidências em uma experiência sensível, convidando o público a explorar aspectos profundos da existência desses povos. Logo na entrada, o visitante se depara com dados impressionantes: 9,6 milhões de hectares de território indígena, aproximadamente 30 mil habitantes na região e mais de 330 comunidades, além de uma diversidade linguística que resiste ao tempo. Por outro lado, também há números que denunciam: um crescimento preocupante nos casos de malária, desnutrição infantil e centenas de mortes que poderiam ser evitadas nos últimos anos. Contudo, a exposição vai além da simples denúncia.
Organizada em três principais eixos – território e cultura, crise e violação, cuidado e resposta – a mostra costura narrativas que vão da origem do mundo, segundo a cosmovisão indígena, até a atual emergência humanitária que afeta esses povos. Fernanda Severo, a curadora da exposição, destaca que o conceito central, o “sopro”, é profundamente enraizado na cultura indígena. “O sopro é um elemento primordial. É dele que emergem diversos processos da humanidade e da criatividade”, explica Severo, ressaltando que muitos rituais presentes nas fotografias expostas incorporam essa ideia.
A curadora enfatiza que o sopro também simboliza um gesto coletivo, um chamado à humanidade. “Que seja um sopro de humanidade para todos nós, o deles e o nosso. Sustentar a terra-floresta, como diz David Kopenawa [xamã e liderança yanomami], é um apelo para que ajamos em prol dessa causa!”, completou.
A vivência direta no território Yanomami torna a exposição ainda mais impactante para aqueles que já estiveram lá. Antônio Alves, ex-secretário especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde, compartilha sua experiência, mencionando diversas visitas ao território em Roraima e Amazonas entre 2010 e 2016. “Naquelas épocas, as agressões ao território eram menos intensas. Essa emergência sanitária reaviva memórias dolorosas do que os não-indígenas permitiram que acontecesse”, comentou Alves, ressaltando a importância de garantir que os povos continuem lutando por seus direitos e terras, assegurando seu bem-estar.
Entre a Denúncia e a Esperança
Ao percorrer os painéis da exposição, o visitante se depara com uma narrativa de um território ferido, marcada por invasões, garimpo ilegal, contaminação por mercúrio e graves problemas de saúde. Em 2023, imagens de crianças e idosos em condições críticas de saúde mobilizaram tanto o país quanto o mundo. Entretanto, a mostra também retrata um movimento de reconstrução. Cecília Andrade, coordenadora adjunta da exposição, enfatiza que “a exposição apresenta um olhar mais sensível. Ela parte de um momento de grande violação, mas também destaca a importância da atuação do Estado, sinalizando um momento de cuidado e transformação”.
A vice-diretora da Fiocruz Brasília, Denise Oliveira, acrescenta que a exposição provoca reflexões sobre conhecimento e pertencimento, ressaltando que os povos tradicionais nunca perderam sua conexão com a natureza. “Nós, como seres urbanos, muitas vezes nos distanciamos dessa relação”, observou, sublinhando a importância de honrar essas culturas ancestrais. “Eles estão sempre demonstrando força e resiliência, mesmo diante de adversidades extremas”, acrescentou.
Mariana Souza, uma pesquisadora social de 17 anos do projeto Territórios da Construção de Si, evidenciou que uma das imagens que mais a impactou foi a de uma criança yanomami. “O olhar dela é verdadeiro. Não expressa tanto sofrimento, mas sim esperança, mesmo em meio à dor”, relatou.
Esta exposição é fruto do projeto “Fortalecimento das Políticas de Defesa e de Promoção dos Direitos Humanos para os Povos Indígenas do Estado de Roraima”, uma parceria entre a Fiocruz Brasília e o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. A iniciativa visa a construção de redes de cuidado, proteção e garantia de direitos para esses povos.
A mostra está sendo realizada em celebração à segunda edição do Abril Indígena, uma iniciativa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e permanecerá aberta ao público na Escola de Governo Fiocruz-Brasília até 26 de junho de 2026.
