Operação da Polícia Federal investiga esquema de garimpo ilegal e lavagem de dinheiro
A Polícia Federal deflagrou a segunda fase da operação que mira um esquema de garimpo ilegal de cassiterita na Terra Indígena Yanomami, em Roraima. Entre os alvos está o cantor e compositor Alexandre Pires, cujo nome aparece vinculado a contas usadas para lavagem de dinheiro dentro do golpe. A investigação aponta que uma empresa compradora no exterior do minério foi enganada, recebendo pó de brita e areia no lugar da cassiterita, em transação que movimentou quase US$ 48 milhões.
Mandados de busca e apreensão ampliam alcance da operação
A Justiça Federal autorizou mandados de busca e apreensão na casa e no escritório do artista em Uberlândia, no Triângulo Mineiro. Essa não é a primeira vez que Pires está envolvido na operação; ele já foi alvo de ações semelhantes na primeira fase, batizada de Disco de Ouro. Além dele, outros 11 mandados foram cumpridos, incluindo contra os irmãos gaúchos Diego e Matheus Possebon, este último empresário do cantor e apontado como um dos líderes do esquema.
Outro alvo na capital gaúcha foi Carlos Konrath, presidente do Conselho da Opus Entretenimento, empresa do setor de shows. Ao todo, 17 ordens de sequestro de bens e valores foram expedidas pela 4ª Vara da Justiça Federal em Boa Vista.
Extração ilegal e falsificação de documentos
De acordo com a Polícia Federal, a cassiterita foi retirada ilegalmente da Terra Indígena Yanomami entre 2021 e 2022. Para ocultar a origem, o grupo usou documentos falsos que indicavam um garimpo legal em Itaituba, no Pará. Entretanto, imagens de satélite comprovaram que naquele local não houve atividade extrativa, ainda que notas fiscais registrassem a venda de mais de 110 toneladas do minério.
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A cassiterita, principalmente por ser fonte do estanho, metal essencial para semicondutores e tecnologias como inteligência artificial e energia renovável, tem grande valor no mercado internacional, o que potencializou o esquema criminoso.
Golpe com envio de areia e brita para compradores internacionais
Após a apreensão de mais de 100 toneladas de cassiterita ilegal e um quilo de ouro em Boa Vista, há quatro anos, o grupo liderado por Matheus Possebon perdeu a capacidade de cumprir contratos de venda. Para manter o esquema, enviaram 129 contêineres para países asiáticos, como Tailândia, China e Malásia, sendo que pelo menos 109 continham areia e pó de brita, acompanhados de laudos químicos falsificados. A empresa suíça Gerald Metals, destinatária da carga, foi vítima dessa fraude e Diego Possebon tornou-se réu nos Estados Unidos por essa operação.
Lavagem de dinheiro movimentou dezenas de milhões de dólares
A investigação também revelou um elaborado esquema de lavagem de dinheiro com os recursos obtidos pela venda fraudulenta. Entre US$ 23 a US$ 24 milhões foram lavados por meio da operação de dólar-cabo, um sistema informal de compensação financeira com origem na Ásia. O dinheiro circulou por contas nos Estados Unidos e foi convertido em reais no Brasil por empresas de fachada, distribuindo valores para laranjas, familiares, funcionários e advogados ligados aos Possebon.
Outros US$ 26 milhões foram lavados por empréstimo para a distribuidora Metalsur, segundo colaborações premiadas firmadas com a 4ª Vara Criminal Federal de Roraima. Uma das colaboradoras do esquema até se comprometeu a ministrar curso para policiais federais sobre técnicas de lavagem de dinheiro e uso de empresas fantasmas, uma medida inédita na Justiça brasileira.
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Procuradoria investiga danos aos Yanomami e impactos sociais
O Ministério Público em Roraima apura também a responsabilidade pelo impacto causado aos povos Yanomami durante a crise humanitária de 2020 a 2022. Estimativas preliminares indicam que os prejuízos, considerando o valor do minério e os danos ambientais, ultrapassam R$ 1 bilhão. A reparação inclui efeitos sobre a saúde, a cultura e a organização social das comunidades, com depoimentos coletados em aldeias e dados de saúde do território.
Defesas negam envolvimento e ressaltam ausência de ilegalidades
A defesa de Alexandre Pires divulgou nota afirmando que o cantor nunca teve qualquer ligação com garimpo ou extração de minérios, especialmente em áreas Indígenas, e que seu nome foi envolvido indevidamente. O advogado Luiz Flávio Borges D’Urso garantiu que Pires não cometeu ilegalidades, fato que está sendo evidenciado nas investigações.
Diego Possebon, por meio de sua defesa, afirmou que os fatos investigados são antigos e que o empresário sempre colaborou voluntariamente com as autoridades. A Opus Entretenimento esclareceu que não foi notificada ou alvo direto da operação, ressaltando que o presidente do Conselho colaborou com a Justiça voluntariamente.
Matheus Possebon também se declarou surpreso com a nova fase da operação, destacando que atua no setor de música e entretenimento e nunca esteve envolvido no comércio ou exportação de minérios.
