Decisão judicial protege comunidade indígena em Roraima
A Justiça Federal julgou parcialmente procedentes as ações do Ministério Público Federal (MPF) contra dois agropecuaristas e uma empresa de aviação agrícola responsáveis pela pulverização aérea de agrotóxicos perto da Terra Indígena Serra da Moça, em Boa Vista (RR). A sentença, proferida pela 1ª Vara Federal Cível de Roraima na última sexta-feira (18), condenou os réus ao pagamento de R$ 750 mil por danos morais coletivos à Comunidade Indígena Morcego, habitada pelos povos Macuxi e Wapichana.
Proibição da pulverização aérea e impacto na saúde indígena
O juiz responsável pela decisão confirmou a liminar que proíbe os agropecuaristas e a empresa de realizar pulverizações por aeronaves ou outros veículos aéreos na Fazenda Paricarana e nas imediações da Terra Indígena Serra da Moça, especialmente quando as práticas estiverem em desacordo com as normas ambientais e de segurança. O montante financeiro arrecadado com a condenação deverá ser destinado conforme a indicação do MPF, dando prioridade à reparação dos danos causados.
As investigações do Ministério Público revelaram que os dois homens exploravam a atividade agrícola na fazenda e contrataram a empresa de aviação para aplicar agrotóxicos sem respeitar as exigências legais. A fazenda fica a menos de 300 metros da comunidade indígena, o que agravou os impactos da contaminação.
Histórico das pulverizações e resistência legal
De acordo com o relatório do MPF, desde 2021 foram registradas cinco pulverizações aéreas na região. Mesmo após a intervenção do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que aplicou autos de infração e determinou a suspensão das atividades, as pulverizações continuaram acontecendo.
Leia também: MPF recomenda compra urgente de medicamento contra bicho-de-pé na Terra Indígena Yanomami (RR)
Leia também: MPF garante avanço na demarcação da Terra Indígena Kayabi no MT e PA
Na defesa apresentada, os acusados alegaram que a aplicação dos defensivos agrícolas seguia as normas técnicas e regulamentares, negando vínculo entre a pulverização e os problemas de saúde relatados pelos Indígenas. Entretanto, o magistrado rejeitou esses argumentos, destacando provas como os autos do Ibama, relatórios do Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei) do Leste de Roraima e depoimentos que confirmam a contaminação e o risco à saúde humana.
Consequências para a saúde e o meio ambiente
Em maio de 2022, o MPF ouviu relatos dos moradores indígenas sobre sintomas associados ao contato com os agrotóxicos, incluindo ardência no corpo, dificuldade para respirar, dores de cabeça, náuseas, coceira e irritação ocular. O Dsei confirmou atendimentos médicos relativos a essas reações.
Além dos impactos na saúde, a vegetação e as plantações dentro da Terra Indígena também sofreram danos significativos. Moradores relataram a perda de hortaliças e a contaminação do solo, agravada pelo transporte de resíduos pela água da chuva.
Fiscalização do Ibama e medidas punitivas
Nas primeiras vistorias, o Ibama constatou o uso irregular de agrotóxicos classificados como perigosos, aplicados de forma aérea sem respeitar as normas ambientais. Foram aplicadas multas que chegaram a R$ 205 mil e uma ordem de suspensão da atividade. No entanto, as pulverizações continuaram, o que levou a uma nova fiscalização em julho de 2022, elevando as multas para R$ 307,5 mil e confirmando a reincidência.
Leia também: Justiça Federal mantém proteção da Terra Indígena Ituna-Itatá após pedido do MPF
Leia também: MPF busca condenação de ex-servidores da Funai e garimpeiros por esquema de propina em ouro na Terra Yanomami
Um relatório adicional do Ibama apontou que uma roça comunitária dentro da Terra Indígena foi atingida por agrotóxicos, resultando na perda da plantação em maio de 2022.
Desdobramentos e ações criminais
Além da condenação civil, o MPF apresentou denúncia criminal contra os agropecuaristas por crime relacionado ao uso, transporte ou descarte irregular de agrotóxicos. A ação reforça a responsabilização pelos danos ambientais e à saúde das comunidades indígenas.
Esse caso destaca a importância da fiscalização e da proteção dos territórios indígenas contra práticas que ameaçam a integridade ambiental e a saúde dos povos tradicionais.
