Um Novo Olhar Sobre as Cidades e a Natureza
Há séculos, a humanidade enfrenta um desafio crítico: a desarmonia com os ciclos naturais. Segundo André Fernando Baniwa, essa desconexão resulta na destruição do Bem Viver, que a ciência não indígena classifica como crise climática global. Para os Baniwa, essa degradação é impulsionada por uma lógica exploratória que fragmenta comunidades e transforma a vida em mercadoria. No sul global, essa crise não é uma previsão distante. Ela se manifesta através de climas extremos, como calor intenso, enchentes e secas, exacerbando desigualdades em regiões com saneamento inadequado e habitação precária.
Num cenário assim, o planejamento urbano tradicional parece presa de erros recorrentes. Em vez de buscar soluções a partir de tecnologias caras que perpetuam a exploração e a fragmentação, muitas vezes ignora-se a ancestralidade dos povos tradicionais, que podem oferecer caminhos para a sustentabilidade.
Em referência ao Abril Indígena, temos a oportunidade de dialogar com Tallon Macuxi, engenheiro eletricista e liderança indígena LGBT+ de Roraima, e Inauê Jacintho, graduanda em Engenharia Ambiental e parte do povo indígena Guarani Nhandewa. Juntos, exploramos como mudanças climáticas, questões territoriais e desafios urbanos se entrelaçam.
A Cosmovisão Indígena e as Mudanças Climáticas
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O capitalismo tem uma natureza exploratória que molda a percepção de que a Terra é um produto a ser explorado. Para os povos indígenas, no entanto, nosso planeta é um ente vivo com o qual coexistimos. Quando inquirimos como eles veem o que o mundo não indígena denomina “mudanças climáticas”, a resposta é reveladora. Inauê afirma: “Não consigo dissociar as mudanças climáticas de um desequilíbrio mais profundo”. Tallon complementa que as chamadas mudanças climáticas são o resultado da quebra de pactos de defesa das terras e áreas protegidas.
Quando se degrada a terra ou se polui os rios, a Terra reage, não como uma vingança, mas como um organismo que adoece, afetando principalmente os mais vulneráveis socioeconomicamente.
Preservação Territorial e Respostas à Crise Climática
A exploração de terras indígenas e a invasão de seus territórios por garimpos e latifúndios têm causado desregulação da natureza por décadas. Tallon e Inauê defendem que a preservação da terra indígena e seus modos de vida podem oferecer respostas eficazes à crise climática enfrentada pelas cidades brasileiras. “Onde existe terra demarcada, há floresta e água limpa”, destaca Tallon, citando exemplos de manejo sustentável entre os Macuxi.
Os conhecimentos tradicionais e a visão de coletividade, como o nhandereko dos Guarani, ressaltam a importância de cuidar da terra para as gerações futuras e de respeitar todos os seres vivos. Afinal, a invasão de um território por atividades predatórias não é apenas uma questão ambiental, mas atinge o equilíbrio de um sistema de vida.
Terras Indígenas: Soluções Eficientes de Baixo Custo
Dados do Ministério dos Povos Indígenas mostram que as Terras Indígenas (TIs) são as áreas mais preservadas do Brasil. Elas, que representam cerca de 13% do território nacional, abrigam a maior biodiversidade e os menores índices de desmatamento, funcionando como barreiras contra o aquecimento global. A demarcação dessas terras não se trata apenas de direitos fundiários, mas é uma estratégia central para mitigar e adaptar-se às mudanças climáticas.
Inauê afirma que, enquanto o mundo não indígena busca soluções tecnológicas complexas, ignora que a proteção das TIs é uma das soluções mais eficazes e acessíveis disponíveis.
A Inversão da Lógica Urbana
Os desafios urbanos exigem uma mudança de perspectiva. Para Tallon e Inauê, ‘aldear’ o pensamento sobre cidades não é idealizar a vida em aldeia, mas sim inverter a lógica de dominação presente nas atuais cidades. Isso envolve aprender com modos de vida tradicionais que conectam humanos e natureza, como a recuperação de áreas hídricas e a integração de áreas verdes na infraestrutura urbana.
É fundamental que o planejamento urbano incorpore os ciclos naturais e o conceito de Bem Viver. Mudanças tecnológicas são necessárias, mas também é crucial transformar a forma como vemos a vida e a natureza. Como Inauê afirma: “O rio não deve ser um esgoto e a árvore não é um empecilho”. Aldear as cidades implica reconhecer que os povos indígenas não apenas migraram para as cidades, mas que essas cidades adentraram seus territórios ancestrais.
Um Convite à Coexistência e à Reparação Histórica
Reconstruir o Bem Viver exige uma união de saberes e uma reafirmação da identidade indígena em um mundo em desequilíbrio. Essa retomada não é um retorno ao passado, mas uma estratégia política e educativa que busca garantir que conhecimentos técnicos e ancestrais andem juntos.
A visão Baniwa nos ensina que a verdadeira solução para o colapso climático nas cidades não virá de tecnologias caras e complexas, mas do reconhecimento e protagonismo da ciência indígena na preservação dos territórios. Esse respeito ao conhecimento tradicional assegura não apenas a saúde do planeta, mas também a vida urbana, enfatizando a necessidade de uma mudança de mentalidade que ultrapasse a mera técnica e busque a justiça socioambiental.
