Baixa Incidência de Demência Entre Tsimané e Mosetén
Um estudo recente revelou que indígenas da Amazônia, especificamente os Tsimané e Mosetén, apresentam taxas significativamente menores de demência quando comparados a populações industrializadas. A pesquisa destacou que, entre esses grupos, pessoas com demência enfrentam um risco de morte seis vezes maior do que aquelas com cognição normal. Além disso, a sobrevida após o diagnóstico é em média duas a três vezes menor do que nos Estados Unidos.
Ben Trumble, professor da Escola de Evolução Humana e Mudança Social da Universidade Estadual do Arizona (ASU) e coautor do estudo, explicou que a baixa prevalência de demência nesses povos não é apenas resultado da mortalidade precoce. “Algo no estilo de vida Tsimané resulta em taxas de demência mais baixas do que as que vemos nos EUA”, afirmou.
Estilo de Vida e Alimentação Contribuem para a Saúde Cognitiva
Os Tsimané e Mosetén vivem em comunidades que mantêm práticas tradicionais como agricultura, caça, pesca e preparo de alimentos, atividades integradas ao seu cotidiano. Pesquisas anteriores do Projeto de Saúde e História de Vida Tsimané já haviam apontado para menor atrofia cerebral e melhor saúde cardiovascular nesses grupos, em comparação com populações urbanas dos Estados Unidos e Europa.
Os pesquisadores sugerem que a intensa atividade física e a dieta baseada em subsistência podem ser fatores protetores contra a demência. No entanto, quando a doença se manifesta, a perda de autonomia tem consequências graves, pois a sobrevivência dessas comunidades depende da participação ativa em tarefas como plantar e caçar.
Trumble ressaltou que a demência pode se tornar fatal rapidamente, já que elimina a independência necessária para as atividades diárias essenciais à sobrevivência.
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Desafios e Impactos da Demência nas Comunidades Indígenas
Margaret Gatz, professora da Universidade do Sul da Califórnia e autora principal do estudo, destacou que a demência não só limita a autonomia dos indivíduos, mas também aumenta a pressão sobre suas famílias. O acesso restrito a cuidados médicos torna doenças tratáveis, como infecções, mais perigosas para essas populações.
A pesquisa identificou que a incidência de demência entre os Tsimané não difere significativamente das taxas observadas em outros lugares, o que desafia os cientistas a identificar os fatores de risco específicos para esse grupo.
Além disso, as características da demência nesses indígenas parecem se afastar do padrão clássico da doença de Alzheimer. Dificuldades de atenção, raciocínio e execução de tarefas foram mais comuns, enquanto problemas de memória, típicos do Alzheimer, não se destacaram.
Aspectos Genéticos e Vasculares na Demência Indígena
Análises preliminares de sangue mostraram associação entre demência e níveis elevados de proteínas de cadeia leve de neurofilamento, marcadoras gerais de neurodegeneração. Contudo, não houve associação com proteínas amiloide ou tau fosforilada, que são típicas da doença de Alzheimer. Exames de imagem e avaliações vasculares indicaram possível influência de doenças dos vasos sanguíneos no comprometimento cognitivo.
Gatz afirmou que o padrão de atrofia cerebral observado nos Tsimané não corresponde ao da doença de Alzheimer, mas sugere participação de fatores vasculares.
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Os pesquisadores também encontraram associação entre a variante genética APOE4, ligada ao risco de Alzheimer, e a demência nos participantes. No entanto, a pesquisadora destacou que esse gene também está envolvido no transporte de lipídios e na resposta imune, e a associação não confirma a presença da patologia típica do Alzheimer.
Pesquisa Culturalmente Adaptada e Perspectivas Futuras
O estudo contou com adaptações culturais e linguísticas para respeitar as peculiaridades das comunidades. Entrevistas clínicas e testes cognitivos foram aplicados em tsimané ou espanhol, considerando o baixo nível de alfabetização dos participantes. A equipe do Projeto de Saúde e História de Vida Tsimané também oferece exames médicos e apoio na coordenação dos cuidados.
Gatz ressaltou a importância da colaboração dos indígenas para o avanço da pesquisa, destacando o desafio e a gratificação do trabalho.
Os próximos passos envolvem exames cerebrais mais detalhados e o uso de novos biomarcadores sanguíneos, visando aprofundar a compreensão sobre as contribuições vasculares e os mecanismos associados à doença de Alzheimer nessas populações.
