Garimpo ilegal avança em terras Munduruku
O garimpo ilegal de ouro voltou a se expandir em áreas da Terra Indígena (TI) Munduruku, no Pará, entre setembro de 2025 e agosto de 2026. Um estudo divulgado nesta segunda-feira (21) identificou dez novos locais de exploração ilegal, sendo nove dentro da TI Munduruku e um na TI Sai Cinza. A análise combinou imagens de satélite com monitoramento direto nos territórios, revelando abertura de estradas, ampliação de frentes de garimpo já existentes e o surgimento de novas áreas de extração.
Impactos ambientais e sociais sentidos pelos Munduruku
As evidências foram reunidas pela Environmental Investigation Agency (EIA), organização especializada no combate a crimes ambientais, em parceria com três entidades Munduruku: Associação de Mulheres Munduruku Wakoborũn, Associação Da’uk e Movimento Munduruku Ipereğ Ayũ. O território, localizado entre Itaituba e Jacareacanga, é um dos mais afetados pelo garimpo ilegal na Amazônia. Apesar das operações de desintrusão do Governo Federal entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025, a atividade ilícita segue se expandindo, causando impactos devastadores para o povo Munduruku, como destaca Rick Jacobsen, gerente sênior da EIA.
Em nota, a Associação de Mulheres Munduruku Wakoborũn denunciou que o garimpo continua contaminando alimentos e água com mercúrio, um veneno que envenena o território e a vida da comunidade.
Abertura de estradas e desmatamento ilegal
Uma área próxima à nascente do rio Crepori era protegida por mata fechada até outubro de 2025. Dois meses depois, uma estrada de 14 km foi aberta, ligando o local ao Parque Nacional do Rio Novo e facilitando a mineração ilegal. Entre março e julho de 2026, o avanço do garimpo nessa área foi confirmado tanto pela EIA quanto pelos próprios Munduruku, que notificaram as autoridades.
Em outra frente, apesar de uma fiscalização federal em novembro de 2024 ter interrompido as atividades, o garimpo foi retomado logo depois. No período entre março de 2025 e julho de 2026, cerca de 30 hectares de floresta foram desmatados para expandir a extração, segundo estimativas da EIA.
Leia também: MPF exige R$ 1,7 bilhão e ações contra garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami
Leia também: Polícia apreende 500 litros de diesel usados em garimpo ilegal na Terra Indígena Sararé
Na Aldeia Jardim Kaboro’a, uma inspeção indígena em julho identificou 99 equipamentos usados em três frentes de garimpo ilegal. O estudo relata que lideranças tradicionais foram ameaçadas e desrespeitadas nessas áreas.
Denúncias reforçam a urgência de ações efetivas
Relatórios de monitoramento de março e agosto reforçam o apelo dos Munduruku por medidas concretas que interrompam o avanço do garimpo. Eles também denunciam a falta de respostas satisfatórias a denúncias anteriores, evidenciando um cenário de impunidade e vulnerabilidade.
Visita da Corte Interamericana de Direitos Humanos
No início de setembro, uma comitiva da Corte Interamericana de Direitos Humanos esteve na TI Munduruku para avaliar o cumprimento das medidas de proteção recomendadas em 2022. Lideranças Indígenas relataram à delegação a persistência das atividades ilegais, dificuldades no acesso à saúde e contaminação por mercúrio. Segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), nenhuma das obrigações impostas pela corte foi completamente atendida.
Durante a visita, foram apresentadas as evidências do avanço do garimpo, que continuou mesmo com a presença da delegação. A Associação de Mulheres Munduruku Wakoborũn criticou o governo brasileiro por falhar na proteção dos direitos e modo de vida indígena.
Deslocamento das operações ilegais após ação federal
A Casa Civil da Presidência informou que a operação de desintrusão realizada até fevereiro de 2025 inutilizou equipamentos e acampamentos, causando prejuízo estimado em R$ 112,3 milhões às atividades ilegais. Ainda assim, o garimpo se deslocou para outras regiões, conforme estudo do Instituto Mãe Crioula e da Universidade do Estado do Pará (Uepa).
Leia também: Operação Xapiri: Forças Armadas Combatem Garimpo Ilegal na Terra Indígena Yanomami
Leia também: Governo do Brasil Inaugura Unidade de Soberania Alimentar na Terra Indígena Yanomami
Essa movimentação demonstra a capacidade de adaptação da economia ilegal do ouro, que não foi desmontada pelas ações. O garimpo ilegal é uma das principais causas do desmatamento e da contaminação por mercúrio na região, afetando diretamente os rios, peixes e comunidades indígenas.
Indígenas relatam que a assistência à saúde continua insuficiente após a expulsão dos invasores. A Casa Civil afirma que a operação conseguiu sufocar as estruturas de suporte ao garimpo, enquanto o Ministério dos Povos Indígenas destaca a necessidade de manter e consolidar ações para prevenir o retorno das atividades ilícitas.
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) reforça sua atuação para proteger a integridade das Terras Indígenas Munduruku e Sai Cinza, ressaltando a importância das denúncias indígenas para aprimorar as medidas de proteção. O Ministério da Justiça e Segurança Pública informou que a Força Nacional apoiou ações de fiscalização até abril deste ano e retomou as operações após nova solicitação do Ministério dos Povos Indígenas.
Madeira ilegal também ameaça território Munduruku
Além do garimpo, a extração ilegal de madeira preocupa as comunidades Munduruku. Em janeiro, a EIA divulgou relatório apontando que madeira retirada ilegalmente na TI era vendida para madeireiras ligadas a importadores na Europa e Estados Unidos. A operação ilegal ocorreu entre 2023 e 2024, com cerca de 60 km de estradas abertas para transporte da carga, estimada em 1,2 mil metros cúbicos, volume suficiente para 20 a 35 carretas.
25 anos de investigação em defesa dos direitos indígenas
A Repórter Brasil tem histórico de 25 anos de trabalho investigativo, contribuindo para a criação de leis, fortalecimento de direitos e combate ao trabalho escravo, com foco em causas que impactam povos indígenas e suas terras.
