Retratos da Crise e Resistência Indígena
Na última segunda-feira, 27 de novembro, Brasília foi palco da abertura da exposição “Sopro Humano: Yanomami e Ye’kwana sustentando a terra floresta”. A iniciativa, coordenada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) em colaboração com o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), traz um olhar sensível sobre a crise humanitária vivida por esses povos. A mostra apresenta uma coletânea de fotografias que foram captadas durante missões em Roraima, após a declaração de emergência humanitária na região em 2023. As imagens não só revelam os efeitos devastadores da crise, mas também os caminhos de resistência e reconstrução em meio às adversidades.
A exposição teve origem no projeto intitulado “Fortalecimento das Políticas de Defesa e de Promoção dos Direitos Humanos para os Povos Indígenas do Estado de Roraima”. Este projeto, desenvolvido em conjunto pela Fiocruz Brasília e o MDHC, oferece uma curadoria ancestral, proporcionando uma visão sensível dos modos de vida e dos territórios dos povos Yanomami e Ye’kwana, além de abordar as violações enfrentadas por essas comunidades.
Os registros fotográficos foram realizados por figuras notáveis, como Márcia Cruz, chefe da Assessoria Especial de Comunicação Social do MDHC, e a fotógrafa e filmmaker Daniela Pinheiro. A equipe também é composta por Icleia Moura de Castro, coordenadora-geral do Centro de Referência em Direitos Humanos Yanomami e Ye’kwana (CREDHYY), além de colaboradores como a jornalista Sônia Corrêa e Karina Zambrana, da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), e Bruno Mancinelli, da Casa de Governo em Roraima.
Caminhos de Conscientização e Ação
Além das fotografias, o espaço da exposição conta com instalações que incluem frases inspiradoras, extraídas das obras de Davi Kopenawa Yanomami, um renomado xamã e porta-voz do seu povo. A estrutura da mostra é dividida em três eixos principais: “Território e Cultura”, que explora os modos de vida e saberes tradicionais dos Yanomami e Ye’kwana; “Crise e Violação”, que destaca as consequências do garimpo ilegal, da desassistência e das diversas formas de violência; e “Cuidado e Resposta”, que enfoca as ações do Estado, da Fiocruz e das redes locais para a proteção e garantia dos direitos indígenas.
Márcia Cruz, ao comentar sobre a exposição, afirmou que “as fotografias capturam esses três momentos: desde a crise humanitária até a resposta governamental. A intenção é mostrar parte do trabalho realizado nas missões do Ministério, em parceria com a Fiocruz, que se dedica ao cuidado da saúde da população indígena”.
Para Daniela Pinheiro, a fotografia transcende a estética, tornando-se um ato político e um meio de troca de experiências: “Esse processo começou com a escuta e o reconhecimento da força feminina que preserva e transmite saberes ancestrais. Tive a oportunidade de acompanhar mulheres indígenas que atuam como intérpretes no CREDHYY e no Centro de Atendimento Integrado à Criança Yanomami e Ye’kwana (CAICYY). Isso revela uma dimensão crucial: são mulheres na linha de frente, mediando mundos, línguas e saberes”.
Rede de Proteção e Conscientização
Cecília Andrade de Melo e Silva, coordenadora da Fiocruz Brasília, enfatizou que a exposição serve como “um convite à escuta, um espaço que nos aproxima da realidade dos povos Yanomami e Ye’kwana com respeito e responsabilidade”. Edneia Ye’kwana, uma das indígenas fotografadas por Daniela Pinheiro e que atua como intérprete nos centros de referência de Roraima, expressou seu orgulho: “É muito gratificante trabalhar para o meu povo, mostrando aos visitantes nossa cultura, nossa arte e a história que cada pintura representa”.
Dentre as ações de proteção aos indígenas na região, destacam-se a implementação do CREDHYY e do CAICYY, assim como formações contínuas para profissionais que atuam nesses serviços. Essas iniciativas visam garantir a proteção, denúncia e promoção dos direitos da população indígena, com atenção especial à saúde, nutrição e defesa de crianças contra negligência e violência.
O MDHC desempenha um papel fundamental em responder à emergência humanitária, atuando na articulação de políticas públicas, na reconstrução da rede de proteção e na promoção dos direitos indígenas. As obras da exposição poderão ser visitadas até o dia 26 de junho, das 8h às 17h, na Escola de Governo Fiocruz-Brasília (EGF-Brasília).
