Parteiras Indígenas: Um Legado de Cuidado e Conhecimento
Maria Francisca Maciel, carinhosamente chamada de Penha, é parteira há mais de 40 anos e iniciou sua jornada no cuidado a partir dos 25 anos. Com quase 70 anos, ela já assistiu mais de 730 partos em sua comunidade, situada em Baía da Traição, no litoral da Paraíba. Para celebrar histórias como a de Penha, a qual pertence ao povo Potiguara, o Ministério da Saúde comemora o Dia Internacional da Parteira, marcado no dia 5 de maio. Esta data foi estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 1991, reconhecendo a importância e a valorização dessa profissão essencial.
“Com os saberes tradicionais que herdei de minhas ancestrais, já realizei mais de 730 partos e nunca perdi uma mãe ou uma criança. Acompanho desde o início da gravidez com amor e dedicação, porque ser parteira é um dom”, ressalta Penha, demonstrando a profundidade de seu compromisso.
O trabalho das parteiras vai muito além do momento do parto. Elas acompanham todo o ciclo gestacional, orientando as famílias e estabelecendo-se como referências nas comunidades, respeitando as tradições e as concepções de saúde dos povos indígenas. Esta cultura de cuidado atravessa gerações, mantendo vivos os saberes ancestrais.
Um Papel Vital na Saúde Indígena
No contexto da saúde indígena, nos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), existem mais de duas mil parteiras e parteiros, incluindo cerca de 50 parteiros indígenas. Esses profissionais desempenham um papel vital no cuidado integral, que se estende desde a gestação até o pós-parto, sendo verdadeiros guardiões dos conhecimentos e práticas únicas de suas comunidades.
Aparecida dos Santos, também do povo Potiguara, começou sua trajetória como parteira aos 14 anos, aprendendo com as mulheres de sua aldeia. Atualmente, ela é enfermeira no Dsei Potiguara e acredita na importância da integração entre os dois mundos de conhecimento. “Vivencio tanto o universo da enfermagem quanto o das parteiras. É fundamental que esses conhecimentos dialoguem, pois o pré-natal, por exemplo, é crucial para decidir se a mulher pode ter o bebê em casa ou se precisa de atendimento especializado. Levo comigo essa tradição com muito orgulho e amor, cuidando da saúde do meu povo”, destaca Aparecida.
O cuidado prestado pelas parteiras é sinônimo de acolhimento, confiança e respeito às escolhas e tradições das comunidades. Leidi Daiana, também indígena Potiguara e mãe de seis filhos, vivenciou tanto partos em hospitais quanto domiciliares. “Meu parto em casa foi uma experiência incrível, com muito acolhimento. Minha mãe esteve lá e uma parteira da aldeia me ajudou. Precisamos valorizar as parteiras da nossa comunidade e garantir que essa tradição não desapareça”, defende Leidi.
Uma Tradição Valorizada e Respeitada
Desde os anos 2000, o Ministério da Saúde tem implementado iniciativas para fortalecer a atenção à gestação, ao parto e ao puerpério. Um dos programas, o “Trabalhando com Parteiras Tradicionais”, inclui o parto domiciliar assistido por parteiras nas políticas públicas de saúde. Em 2025, a Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) elaborou um Plano de Parto adaptado às realidades das comunidades indígenas, visando qualificar o atendimento durante o pré-natal, parto e puerpério, respeitando as especificidades culturais.
Além disso, a Sesai promoverá, em junho, o Encontro Nacional de Parteiras e Parteiros Indígenas, com o intuito de valorizar esses especialistas e fortalecer sua participação na formulação de políticas públicas voltadas para a saúde materna e infantil.
Putira Sacuena, secretária-adjunta da Sesai, enfatizou a relevância das parteiras na integração entre os conhecimentos indígenas e a medicina ocidental. “Estamos firmando parcerias com organizações indígenas para valorizar as práticas de cuidado, promovendo a saúde dos povos indígenas com respeito à autonomia e autodeterminação”, conclui. A valorização dos saberes indígenas é essencial para proporcionar um cuidado integral à saúde das mulheres e crianças, contribuindo para a redução da morbimortalidade materna e neonatal.
