Comunidade Aeta Hungey e o risco de deslocamento
Há gerações, a tribo Aeta Hungey habita as pradarias de Tarlac, a cerca de cem quilômetros de Manila, nas Filipinas. Atualmente, cerca de mil integrantes dessa comunidade enfrentam a ameaça de serem removidos de suas terras por causa de um projeto de polo tecnológico impulsionado pelos Estados Unidos. A tribo ainda não recebeu informações claras sobre quais áreas serão afetadas ou como garantirão seu sustento caso o reassentamento ocorra.
A líder indígena Petronila Muñoz, 63 anos, expressa a incerteza que domina a comunidade: “Ainda não há clareza. O que vai acontecer conosco? Essa é nossa principal pergunta”. Ela destacou que, até o momento, não houve respostas concretas para os moradores.
Investimento bilionário e promessas do governo
Em abril, os Estados Unidos anunciaram que as Filipinas aderiram à Pax Silica, iniciativa liderada por Washington para fortalecer cadeias de fornecimento de semicondutores e terras raras, além de reduzir a dependência desses países em relação à China. Para viabilizar o projeto, o governo filipino separou uma área de 1.620 hectares em New Clark City, na província de Tarlac, que será destinada à manufatura de componentes avançados para centros de dados de inteligência artificial.
O governo estima que a iniciativa pode atrair até US$ 70 bilhões em investimentos e gerar aproximadamente 190 mil empregos, uma resposta significativa para um país com mais de 3 milhões de desempregados. No entanto, para os Aeta, a possibilidade de serem deslocados já é uma realidade preocupante.
Pressão para saída e resistência da comunidade
Em julho, a comunidade recebeu uma carta da Autoridade para a Conversão e o Desenvolvimento de Bases (BCDA), que informou que o empreendimento “poderia afetar as terras que ocupam”. Segundo Muñoz, funcionários da BCDA visitaram a tribo e indicaram que os moradores deveriam deixar a área até dezembro e se mudar para um local a cerca de 16 quilômetros de distância, sem apresentar um plano detalhado sobre as áreas impactadas.
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A BCDA teria oferecido a quantia de 30 pesos por metro quadrado das terras — cerca de meio dólar — proposta que foi rejeitada por todos os moradores. “Nossa vida, nosso sustento e nossa cultura estão ligados a esta terra ancestral. A terra é mais importante. O dinheiro acaba”, reforçou Muñoz.
Falta de títulos e ausência de diálogo direto
Durante uma audiência no Senado filipino, o presidente da BCDA, Joshua Bingcang, afirmou que os Aeta vivem em terras do Estado, ressaltando que, como muitos povos indígenas no país, a comunidade não possui títulos de propriedade sobre a área. Muñoz acrescenta que, apesar de consultas públicas realizadas pela BCDA em Tarlac e regiões vizinhas, não houve diálogo direto com a tribo.
A comunidade desconhece se o governo planeja fornecer novas moradias ou terras cultiváveis para garantir sua subsistência caso o reassentamento aconteça. Além disso, os Aeta temem não ter qualificação para os empregos que o projeto promete gerar, sem clareza sobre como seriam incluídos nas oportunidades da Pax Silica.
Impactos ambientais e desafios energéticos
Organizações da sociedade civil também manifestaram preocupação com os impactos ambientais do empreendimento, especialmente em relação ao consumo de água e eletricidade. As Filipinas enfrentam períodos de seca e cortes programados de energia, o que pode agravar a situação local.
O Departamento de Estado americano informou que estudos sobre impactos ambientais, recursos hídricos, energia e efeitos nas comunidades serão a base para o planejamento do projeto. Um porta-voz ressaltou a importância de avaliações rigorosas antes de qualquer grande empreendimento.
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Bingcang declarou ao Senado que os investidores deverão construir seus próprios sistemas de fornecimento de eletricidade e água, o que ainda gera dúvidas entre os moradores e especialistas.
Contexto geopolítico e posição das Filipinas
O projeto também está inserido na disputa geopolítica entre Estados Unidos e China por cadeias de produção estratégicas. Recentemente, veículos de comunicação noticiaram que Washington pretende alertar países que poderão ser excluídos da Pax Silica caso integrem iniciativas rivais apoiadas por Pequim.
Alvin Camba, diretor de pesquisa de uma empresa de inteligência artificial especializada em cadeias de suprimentos, destaca a vantagem das Filipinas na região: “As Filipinas são o país menos afetado pelo capital chinês no Sudeste Asiático”.
Resistência e futuro incerto da tribo
Petronila Muñoz reafirma o receio da comunidade de que o projeto avance sem que os Aeta sejam efetivamente ouvidos. Ela destaca que as autoridades têm tratado a questão internamente, sem estabelecer diálogo direto com a tribo, o que aumenta a insegurança sobre o futuro da comunidade.
