A conexão entre gerações na defesa dos territórios
“Nossos pés conhecem caminhos antigos. Trilhas que serpenteiam entre rios, se abrem em campos e se escondem nas matas. Cada trilha é memória, cada pegada é história.” Essa frase traduz a essência da obra “Gaton – A força da terra“, lançada recentemente pela estudante de Direito e poetisa Kapri Audisseia Padilha. Filha da cacica Kaingang Iracema Nascimento, conhecida como Gãh Té, Kapri reuniu as histórias e saberes que atravessam gerações, dando voz à cultura, espiritualidade e resistência do povo Kaingang.
Relatos da liderança feminina e a vivência urbana
O livro traz relatos profundos da trajetória de Gãh Té, que atua como liderança indígena feminina na capital gaúcha, Porto Alegre. Além disso, retrata o trabalho da cacica na retomada de territórios e na preservação dos saberes ancestrais. Fotografias do acervo pessoal e ilustrações dos netos Indianara, Jonas e Sofia enriquecem o material, conectando passado e presente, enquanto reforçam os laços familiares e culturais que permeiam a narrativa.
Um convite para escutar a terra e suas histórias
Durante o lançamento na aldeia Gah Re, aos pés do Morro Santana, Iracema recebeu convidados com chimarrão e pratos tradicionais, como o bolo de milho socado no pilão e a batata-doce assada. Em um gesto que simboliza a transmissão oral dos saberes, ela convidou a todos a ouvir atentamente sobre um “livro feito de chão e de palavra antiga”.
Leia também: A força das mulheres Kaingang na luta contra a violência e pela juventude indígena
Leia também: Projeto de Polo Tecnológico nos EUA Pode Deslocar Mil Indígenas nas Filipinas
Kapri recorda os ensinamentos da mãe desde a infância, quando caminhavam juntas pela periferia, colhendo cipó, taquara, sementes e chás. Observou ainda a diferença entre o modo indígena e o não indígena de registrar o conhecimento, o que a motivou a colocar essas histórias no papel. “O sonho da mãe era colocar tudo em papel escrito”, conta Kapri, ressaltando que, embora existam outros livros sobre a etnia, poucos são escritos por Kaingang.
O significado profundo do livro e a memória dos ancestrais
Gãh Té destaca que o livro é um caminho compartilhado, onde cada linha exige reflexão. Ela convida os leitores a pensarem na mãe, no pai e na “mãe de todos”, a terra. Kapri também enfatiza a conexão familiar com o território. Seu avô, Haroldo, viveu no Morro Santana e atuou como vigia durante a guerra, além de lutar contra arrendatários em Nonoai. Essas histórias alimentaram a motivação para escrever e preservar o legado Kaingang.
Pesquisa linguística e o desafio da escrita Kaingang
Para a elaboração do livro, Kapri realizou uma pesquisa detalhada do dialeto Kaingang, que se estende do sul de São Paulo até o sul do Rio Grande do Sul. Ela destaca que existem diferentes formas de escrita e variações sonoras dentro da etnia. O termo “Gaton” significa “o chamado da terra” ou “o grito da terra” em algumas regiões, e o livro traz essas variações, buscando registrar e valorizar a diversidade linguística.
Leia também: MPF aciona Justiça para reestruturar educação de 3,5 mil crianças Yanomami em Roraima
Leia também: Executivo do Brasil Xavante defende pontos após suspensão do clássico Bra-Pel
Registrar para resistir: a caneta como arma de luta
Kapri ressalta que transformar o saber ancestral em registro escrito é uma forma de resistência. “A gente sabe que não é só a arma que mata, a ponta da caneta está matando muitos indígenas e tirando os territórios”, afirma. A luta da família, que envolve a demarcação da Terra Indígena Borboleta e a defesa dos direitos territoriais, fortalece o compromisso de deixar essas histórias para as futuras gerações.
Respeito à Mãe Terra e legado para o futuro
Gãh Té finaliza com um apelo emocionado para que todos cuidem da terra, reflorestem e plantem sementes, pensando na mãe terra que sustenta a vida. O livro reflete esse cuidado e essa reverência, lembrando que sem a terra, a existência humana seria impossível.
Retomada e resistência na comunidade Gah Re
Mãe e filha vivem atualmente na retomada Kaingang Gah Re, iniciada em outubro de 2022. O local, situado em uma área de Mata Atlântica, é palco de resistência contra a especulação imobiliária e de ações para preservar nascentes e a vegetação remanescente. Iracema atua como liderança comunitária, educadora cultural e guardiã dos saberes tradicionais, transmitindo a língua, os rituais e formando crianças e jovens para manter viva a identidade Kaingang.
