Desafios no cuidado à saúde das juventudes do campo
Garantir o direito à saúde vai além da ampliação dos serviços disponíveis; é preciso reconhecer as diferentes realidades dos territórios, valorizar os saberes dos povos e construir políticas que respondam às necessidades específicas de cada população. Esse foi o tema central das discussões nas turmas VI e VII da residência multiprofissional em Saúde da Família com Ênfase na Saúde da População do Campo, promovida pela Fiocruz Brasília. O encontro reuniu estudantes e educadores para refletir sobre os desafios enfrentados por grupos historicamente vulnerabilizados, como os adolescentes do campo e os povos Indígenas, evidenciando como fatores sociais, econômicos, culturais e territoriais impactam diretamente as condições de saúde e o acesso às políticas públicas.
Visibilidade e cuidado integral para adolescentes do campo
Leandro Araújo, médico de família e militante do MST e da Rede Nacional de Médicas e Médicos Populares (RNMP), destacou que um dos maiores desafios é garantir que os adolescentes do campo sejam reconhecidos como sujeitos de direitos e protagonistas em seus territórios. “O principal desafio hoje é dar visibilidade a esses adolescentes que vivem nos territórios do campo. Muitas vezes eles não são enxergados pelos serviços de saúde e por outras políticas públicas”, afirmou. Araújo reforça a necessidade de fortalecer estratégias de promoção da saúde e de cuidado individual, familiar e comunitário para que esses jovens possam permanecer em seus territórios com qualidade de vida.
Para ele, o cuidado deve articular família, escola, comunidade e serviços públicos. “A intersetorialidade do cuidado é fundamental. A família é o centro do cuidado, a escola oferece um ambiente de proteção essencial, e espaços que promovam lazer, cultura e esporte também são importantes na proteção territorial.” Complementando, Iana Cavalcanti Ferraz, fisioterapeuta, psicanalista e gestora pública, destaca que promover a saúde entre adolescentes do campo demanda um olhar ampliado, que vá além da prevenção de doenças. “É fundamental reconhecer as especificidades culturais, os modos de vida e os determinantes sociais que atravessam a vida desses jovens. Saúde nesse contexto envolve fortalecer os vínculos comunitários, a participação juvenil e a construção de projetos de vida.”
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Saúde indígena: território e interculturalidade
As discussões sobre saúde indígena ressaltaram tanto os avanços obtidos com a Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASPI) quanto os desafios persistentes para oferecer atendimento adequado em territórios marcados pela diversidade cultural e grandes distâncias geográficas. Uziel Suwa, assessor do Gabinete da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI), apontou que os obstáculos são históricos e estruturais, envolvendo a diversidade sociocultural dos povos indígenas e as características geográficas de seus territórios.
Entre os desafios, Uziel destaca as dificuldades de acesso a áreas remotas, a alta rotatividade e insuficiência de profissionais de saúde, limitações logísticas para transporte de equipes, pacientes, insumos e medicamentos, além da necessidade constante de qualificação dos serviços para atuação intercultural. Para os povos indígenas, saúde e território são inseparáveis. “O território não é apenas um espaço físico, mas um ambiente de vida, produção, espiritualidade, memória e transmissão de conhecimentos. A preservação dos territórios tradicionais está ligada à manutenção da alimentação, das práticas culturais, dos sistemas próprios de cuidado e do equilíbrio ambiental que sustenta o bem-viver.”
Uziel enfatiza a importância do diálogo entre os conhecimentos indígenas e a ciência dos serviços de saúde. “A criação do Subsistema de Atenção à Saúde Indígena mostrou que modelos homogêneos nem sempre atendem às necessidades de grupos em contextos diferenciados.” Ele também destacou a construção da nova PNASPI, prevista para publicação em agosto, como uma oportunidade para atualizar a política e enfrentar desafios contemporâneos. Entre eles, estão a ampliação da participação indígena, o fortalecimento da atenção primária, a qualificação dos profissionais, estratégias para enfrentar mudanças climáticas e emergências sanitárias, além do fortalecimento da vigilância em saúde com abordagem territorial.
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Integração e equidade como caminhos para a saúde do campo e dos povos indígenas
Os debates evidenciaram convergências importantes entre a saúde indígena e a saúde dos povos do campo, apontando para a necessidade de políticas territorializadas, participação social ativa, fortalecimento da atenção primária e construção de redes de cuidado que respeitem os modos de vida das comunidades. Uziel Suwa ressalta que a experiência indígena traz aprendizados valiosos para todas as populações do campo, das águas e das florestas. “A trajetória de luta dos povos indígenas reforça a importância da participação social, da gestão compartilhada, da territorialização das ações de saúde e da construção de políticas públicas que considerem as realidades locais.”
Ele conclui que esses princípios são cruciais para fortalecer as políticas destinadas às populações rurais, que enfrentam barreiras semelhantes relacionadas ao acesso aos serviços, desigualdades sociais e impactos ambientais. “A principal lição é que a equidade deve guiar a organização das políticas públicas, garantindo respostas específicas para necessidades diferenciadas.” Iana Cavalcanti reforça a importância da atuação intersetorial, lembrando que proteger e cuidar dos adolescentes depende do diálogo e da responsabilidade compartilhada entre família, escola e serviços de saúde. “Quando esses atores trabalham juntos, criam uma rede de cuidado capaz de promover o desenvolvimento saudável e prevenir vulnerabilidades.”