Aumento da violência contra indígenas em 2025
A violência contra os povos indígenas no Brasil teve crescimento significativo em 2025, conforme aponta o relatório “Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – Dados de 2025”, divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi). A análise destaca a demora na demarcação das terras, a permanência de invasores nos territórios e a insuficiência das políticas públicas como fatores centrais para esse agravamento.
O estudo do Cimi abordou três principais eixos de violência: contra a pessoa, contra o patrimônio e por omissão do poder público, todos com aumento registrado ao longo do ano. Entre os dados mais alarmantes, estão o crescimento no número de assassinatos, suicídios, mortalidade infantil e conflitos relacionados à disputa por terras indígenas.
Assassinatos e agressões crescem em diversas regiões
Em 2025, 258 indígenas foram assassinados no país, um aumento frente aos 211 casos registrados em 2024. Roraima lidera o ranking de mortes violentas, com 82 registros, seguido pelo Amazonas, com 47, e Mato Grosso do Sul, com 37. Esses números foram compilados a partir do Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), secretarias estaduais de saúde e da Secretaria Especial de Atenção à Saúde Indígena (Sesai), além de dados obtidos via Lei de Acesso à Informação (LAI).
Além dos assassinatos, o relatório registrou 474 casos de violência direta contra pessoas indígenas, incluindo ameaças de morte, tentativas de homicídio, lesões corporais, racismo, discriminação étnico-cultural e violência sexual. Um episódio emblemático ocorreu na Ilha do Bananal, Tocantins, onde um adolescente indígena foi marcado na pele com um ferro usado para identificar gado, enquanto trabalhava para um pecuarista. Foi a segunda vez que essa prática foi relatada em menos de um ano.
Conflitos territoriais alimentam a violência
A disputa por terras segue como principal fator da violência contra os povos indígenas. Em 2025, foram contabilizados 1.276 casos de agressão ao patrimônio indígena, dos quais 897 estão relacionados à morosidade ou omissão na regularização das terras. Outros 169 casos envolveram conflitos por direitos territoriais e 210 foram invasões, exploração ilegal de recursos naturais e danos ambientais.
O passivo fundiário indígena no país é expressivo: das 1.443 terras e reivindicações territoriais, 897 ainda aguardam alguma medida administrativa para regularização. Em 582 casos, sequer houve início do processo demarcatório. Durante o ano, 169 conflitos territoriais ocorreram em 23 estados, afetando 143 Terras Indígenas (TIs), sendo que dois terços dessas áreas ainda enfrentavam pendências na regularização ou sequer tinham início da demarcação pelo Estado.
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Dom Jaime Spengler, presidente da CNBB, comentou o relatório: “O Brasil tem uma dívida enorme com os povos originários. É uma vergonha a demora, o atraso na demarcação das terras indígenas.”
Invasões persistem mesmo em terras regularizadas
O relatório também destaca que a violência não se restringe a áreas ainda não regularizadas. Dos 210 casos de invasão e exploração ilegal, 88 ocorreram em Terras Indígenas já homologadas, o que representa 58,3% do total. O Cimi aponta que, apesar das operações de desintrusão, a falta de estruturas permanentes permite o retorno constante dos invasores.
Um exemplo é a Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso, território do povo Nambikwara, que enfrentou aumento no garimpo ilegal em 2025. Essa atividade causa destruição ambiental, desestrutura as comunidades locais, amplia a exposição a doenças e drogas e aumenta a insegurança dentro do território.
Violência por omissão e aumento de mortes evitáveis
O relatório também revela o impacto da falta de políticas públicas na violência contra indígenas. Em 2025, foram registrados 215 suicídios, frente a 208 no ano anterior, concentrados principalmente em Amazonas, Mato Grosso do Sul e Roraima. A maioria das vítimas era jovem, com 41% entre 20 e 29 anos e 34% com até 19 anos.
A mortalidade infantil indígena também cresceu: 1.024 bebês e crianças de até quatro anos morreram em 2025, contra 922 em 2024. Dessas mortes, 586 (57%) foram classificadas como evitáveis, decorrentes de causas como gripe, pneumonia, doenças infecciosas intestinais e desnutrição.
Além disso, o Cimi registrou 366 casos de violência por omissão do poder público, envolvendo desassistência, problemas na educação e saúde, e mortes causadas pela falta de atendimento adequado. A precariedade na infraestrutura, falta de profissionais, medicamentos, água potável e saneamento agrava as condições de vida das comunidades indígenas.
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Contexto político e jurídico agrava insegurança
A entidade ressalta que os números estão diretamente ligados ao ambiente político e jurídico que envolve a demarcação das terras indígenas. O relatório critica a vigência da Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal, a tramitação de medidas no Congresso e a demora do Supremo Tribunal Federal (STF) em definir questões fundamentais sobre a legislação.
Para o Cimi, essa insegurança jurídica contribui para a manutenção dos conflitos territoriais. O governo federal também foi criticado por assumir uma postura de “Estado negociador” nos últimos três anos, priorizando a negociação em detrimento da garantia dos direitos constitucionais dos povos indígenas.
Embora o relatório reconheça avanços, como operações de desintrusão e medidas de proteção, considera que essas ações são insuficientes para enfrentar as causas estruturais da violência. Em 2025, foram homologadas sete terras, publicadas nove delimitações e emitidas dez portarias declaratórias. Mesmo assim, essa é a menor média de homologações do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
A demora na demarcação prolonga a insegurança nos territórios. O Cimi sintetiza essa situação com a frase de uma liderança Guarani e Kaiowá: “O Brasil é um Estado onde parece que a gente fala com as pedras.”
O diagnóstico da entidade deixa claro que a violência contra os povos indígenas vai além dos ataques armados e invasões. Ela se manifesta também na burocracia, na falta de assistência, na destruição ambiental e na dificuldade de garantir direitos já assegurados pela Constituição.
Em 2025, esse conjunto de fatores fez com que a violência avançasse justamente onde o Estado deveria garantir proteção efetiva aos povos indígenas.
