Crescimento das candidaturas indígenas nas eleições gerais
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou um número recorde de candidaturas indígenas nas eleições atuais. Ao todo, 192 pessoas que se declararam indígenas disputam cargos públicos em todo o Brasil, o maior volume desde que o TSE começou a incluir dados de cor e raça em 2014. Esse avanço é celebrado pelo movimento indígena, embora haja preocupação diante da diversidade de partidos representados, incluindo alguns contrários às pautas indígenas.
Entre as candidaturas, destacam-se 75 para deputado federal, número três vezes maior do que as 25 registradas em 2014. Além disso, há 100 candidatos para as Assembleias Legislativas e três para deputado distrital no Distrito Federal, apontou a Campanha Indígena, iniciativa da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
Presença indígena nos governos estaduais e diversidade étnica
Três candidatos indígenas disputam governos estaduais: Isael Munduruku (Rede) no Amazonas; Daniel Lemes (PCO), liderança Guarani Kaiowá no Mato Grosso do Sul; e Jerônimo Rodrigues (PT), atual governador da Bahia e candidato à reeleição, que se declara descendente do povo Pataxó.
Ao todo, 64 povos indígenas estão representados nesta eleição. Os Macuxi, de Roraima, lideram com 13 candidaturas, seguidos pelos Guarani Kaiowá, que apresentam 12 candidatos no Mato Grosso do Sul. A Apib destaca candidaturas em 26 unidades da Federação, abrangendo os seis biomas brasileiros. A Amazônia Legal concentra 80 candidaturas, quase 42% do total, enquanto o Sudeste tem 37, o Nordeste 34, o Centro-Oeste 27 e o Sul 14.
Leia também: Indígenas Lançam Pré-Candidaturas para Ampliar Representatividade no Congresso
Leia também: Museu Histórico da Cidade Celebrará Saberes Indígenas no Rio de Janeiro
Avanço da participação feminina e desafios políticos
O crescimento da presença feminina indígena nas eleições também chama atenção. São 84 mulheres candidatas, quase 44% do total, um salto significativo em comparação com as 29 candidatas em 2014 e as 85 em 2022, que já representavam o maior patamar até então.
Dinamam Tuxá, advogado e coordenador executivo da Apib, ressalta que a ampliação das candidaturas indígenas se deu em diversos partidos. Ele alerta que a origem indígena não garante alinhamento automático às pautas dos povos originários. Cita casos como a influenciadora digital Ysani Kalapalo, integrante da comitiva oficial de Jair Bolsonaro na ONU, e Silvia Waiãpi, policial militar e deputada federal pelo Amapá eleita em 2022, ambas alinhadas ao bolsonarismo.
Racismo estrutural e potencial eleitoral indígena
Dinamam Tuxá destaca a persistência do racismo estrutural e institucional que dificulta o reconhecimento da capacidade dos indígenas para cargos públicos. Contudo, aponta que figuras como Sônia Guajajara, ex-ministra dos Povos Indígenas; Joenia Wapichana, primeira deputada federal indígena e presidente da Funai; e Célia Xakriabá, primeira deputada federal indígena de Minas Gerais, têm contribuído para desafiar esse paradigma.
Leia também: Guia Prático para Combater a Pecuária Ilegal em Terras Indígenas da Amazônia
Leia também: UFGD garante vaga exclusiva para indígenas em todos os cursos do Vestibular 2027
Embora seja cedo para previsões, ele avalia que até oito candidaturas para deputado federal e três para estadual podem alcançar sucesso. O aumento dos recursos destinados às candidaturas indígenas também contribui para essa perspectiva. Em fevereiro, o TSE determinou que candidatos indígenas recebam 30% dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do Fundo Partidário, conforme a proporção de candidaturas.
Inovações na campanha e articulação política indígena
Além do financiamento, as candidaturas indígenas contam com inovações no tempo de rádio e TV. Dinamam Tuxá também destaca a proposta de criar a Bancada dos Povos, que visa ampliar o debate político e fortalecer a correlação de forças. A iniciativa busca apoio de outros grupos sociais, como quilombolas, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MSTS), para fortalecer candidaturas indígenas, mesmo onde não haja apoio direto a nomes indígenas.
Essa articulação representa um avanço na representatividade e no protagonismo político dos povos indígenas no país, refletindo a complexidade e a amplitude das lutas por direitos e reconhecimento no cenário eleitoral atual.
