Seminário internacional reúne lideranças indígenas em Bogotá
Nos dias 15 e 16 de setembro, a Universidade Nacional da Colômbia, em Bogotá, sediou o Seminário Internacional sobre justiça climática e Povos Amazônicos. O evento reuniu lideranças indígenas, pesquisadores e representantes da sociedade civil do Brasil, Colômbia e Peru para discutir temas como direitos humanos, financiamento climático e governança indígena na região amazônica.
O seminário foi organizado no âmbito do programa amazônia Sustentável: Comunidades Resilientes e da Semana de Pesquisa da Faculdade de Ciências Econômicas da universidade colombiana. Entre os convocadores estavam a Pastoral Social Cáritas Colombiana, Cáritas do Peru, Cáritas Brasileira, Comissão Episcopal de Ação Social (CEAS), a Rede Latino-Americana e Caribenha por Justiça Econômica, Social e Climática (Latindadd) e a própria universidade.
Intercâmbio internacional fortalece laços entre povos
Antes do seminário, as organizações participantes promoveram um intercâmbio de cinco dias com comunidades indígenas e camponesas do departamento de Guaviare, na Colômbia. Essa iniciativa, organizada pelas Cáritas da Colômbia, Alemanha e Brasil, incluiu visitas a comunidades, projetos de agroecologia e iniciativas de produção sustentável.
Flávio Vicente Machado, da equipe de incidência internacional do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), destacou que o intercâmbio possibilitou uma troca significativa entre indígenas, camponeses e quilombolas. Entre os participantes brasileiros estavam representantes quilombolas do Nordeste e uma indígena Kaiowá e Guarani do Mato Grosso do Sul. Machado ressaltou que o encontro expressou solidariedade de classe entre esses grupos.
O departamento de Guaviare, marcado por um histórico de violência decorrente do conflito armado e dos processos de paz, apresentou durante o intercâmbio iniciativas de diversificação produtiva e organização comunitária, como cooperativas dedicadas à produção de alimentos. As comunidades também compartilharam as dificuldades enfrentadas e as estratégias adotadas para resistir às pressões sobre seus territórios.
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Debates sobre financiamento climático e participação indígena
Na programação do seminário em Bogotá, o foco foi a relação entre a crise climática e os direitos das comunidades da Bacia Amazônica. Foram discutidos temas como a arquitetura do financiamento climático internacional, condições de acesso a recursos e a participação dos povos indígenas em decisões ambientais e territoriais.
De acordo com dados do programa Amazônia Sustentável e da Latindadd, 81% dos recursos de financiamento climático são oferecidos na forma de empréstimos. Alguns países comprometem até 20% de seus orçamentos com o pagamento da dívida, enquanto menos de 1% dos recursos é destinado à proteção ambiental. Esses números foram apresentados para destacar os desafios de um financiamento climático justo.
Formação em incidência internacional e articulação regional
O seminário também promoveu a preparação de casos considerados emblemáticos para ações de incidência internacional. A formação reuniu comunidades e organizações integrantes dos programas Global 1 e 1B da Cáritas Alemã, abordando mecanismos de atuação em espaços internacionais.
A equipe de incidência internacional do Cimi realizou uma atividade sobre conceitos de incidência e litigância internacional, construção de casos e os espaços disponíveis para encaminhamento de informações ou abertura de processos, incluindo comitês da ONU e o Sistema Interamericano de Direitos Humanos. Segundo Machado, a formação é fundamental diante das dificuldades enfrentadas pelas comunidades em países como Brasil e Bolívia.
A presença de indígenas brasileiros e do Cimi no seminário reflete a articulação regional dos povos amazônicos na defesa de seus territórios e direitos. Em agosto, representantes brasileiros participaram do XII Fórum Social Pan-Amazônico, em Puyo, no Equador, que debateu autodeterminação, proteção territorial e justiça climática com a participação de mais de 2,5 mil pessoas dos nove países da Bacia Amazônica.
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No Brasil, o Cimi também promoveu, em setembro, uma oficina de formação com 36 representantes dos povos Mayuruna, Kanamari, Matis, Kulina e Marubo, da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja). O encontro tratou de direitos territoriais, legislação indígena e políticas públicas.
Crise climática afeta autonomia e modos de vida indígenas
A justiça climática na Amazônia está diretamente ligada aos impactos das mudanças nos regimes de chuva, secas, inundações e degradação ambiental sobre comunidades que dependem dos rios, florestas e territórios tradicionais. Em agosto, o Cimi publicou reportagem sobre os efeitos do Super El Niño no Amazonas, destacando alterações nos ciclos de vazante e consequências para o abastecimento de água, agricultura e a vida comunitária.
Além disso, o debate sobre financiamento climático relaciona-se à autonomia dos povos indígenas, que reivindicam participação direta na definição de políticas e projetos que afetam seus territórios. No Fórum Social Pan-Amazônico, organizações indígenas defenderam o fortalecimento das redes de proteção territorial e a articulação de respostas ao avanço de atividades extrativistas.
A experiência do intercâmbio em Guaviare trouxe para o seminário relatos de organização comunitária, agroecologia e produção de alimentos. Essa troca entre comunidades de diferentes países permitiu compartilhar desafios e formas de resistência diante de contextos marcados por conflitos, mudanças ambientais e pressões territoriais.
O próximo intercâmbio está previsto para outubro de 2027, no Brasil, dando continuidade à articulação entre as comunidades e organizações que participaram das atividades na Colômbia.
