Mortes infantis indígenas no Amazonas preocupam especialistas
O Amazonas registrou 306 mortes de bebês e crianças indígenas de até quatro anos em 2025, o maior número entre os estados brasileiros. Segundo o relatório divulgado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) no dia 13 de agosto, o estado representa quase um terço das 1.024 mortes infantis indígenas registradas em todo o país na mesma faixa etária no ano passado.
O levantamento revela que o número de óbitos cresceu em comparação a 2024, quando foram contabilizadas 922 mortes. O Amazonas lidera o ranking nacional, seguido por Roraima, com 158 óbitos, e Mato Grosso, com 123. O relatório destaca que 57% das mortes – totalizando 586 casos – poderiam ter sido evitadas, incluindo doenças como gripe e pneumonia, que causaram 104 mortes; doenças infecciosas intestinais, responsáveis por 85; e desnutrição, que provocou 32 óbitos.
Violência e suicídios entre indígenas no Amazonas
Além da alta mortalidade infantil, o Amazonas também teve o maior número de suicídios entre indígenas em 2025, com 77 casos registrados, de acordo com o Cimi. Esse índice supera o de Mato Grosso do Sul (42 casos) e Roraima (37). No Brasil, foram 215 suicídios indígenas no total.
O relatório aponta ainda 47 assassinatos de indígenas no Amazonas, atrás apenas de Roraima, que registrou 82 casos. No país, ocorreram 258 assassinatos, número 22% maior que em 2024. Além disso, foram contabilizadas 38 tentativas de assassinato, 46 casos de racismo e discriminação étnico-cultural, 33 lesões corporais, 25 casos de violência sexual, 27 ameaças, 18 ameaças de morte e 19 abusos de poder. Somados, esses crimes totalizam 474 ocorrências de violência contra pessoas indígenas em 2025.
Leia também: Relatório do Cimi revela aumento da violência contra indígenas e defende autodefesa
Leia também: Lideranças Guarani da Aldeia Kalipety Deixam Legado de Resistência e Cultura
Conflitos por terra e invasões aumentam em terras indígenas
O relatório do Cimi também destaca o crescimento dos conflitos relacionados aos direitos territoriais indígenas. Foram registrados 169 casos em 23 estados, afetando 143 Terras Indígenas. Dois terços dessas áreas ainda possuem pendências de regularização ou aguardam providências do Estado para a demarcação.
Além disso, houve 210 casos de invasão possessória, exploração ilegal de recursos naturais e danos ao patrimônio, atingindo pelo menos 151 Terras Indígenas em 20 estados. A maior parte dessas terras já era regularizada, com 88 áreas afetadas, o que corresponde a 58,3% do total.
O capítulo sobre violência contra o patrimônio reúne 1.276 registros, incluindo 897 relacionados à morosidade na regularização, 169 conflitos territoriais e 210 invasões e danos ambientais.
Leia também: APIB leva voz dos povos indígenas brasileiros à COP17 da Desertificação na Mongólia
Leia também: Lei Estadual no Pará Agrava Invasões e Ameaça Genocídio de Indígenas Isolados em Ituna-Itatá
Processos de demarcação e desafios para a proteção territorial
Das 1.443 terras e reivindicações territoriais indígenas do país, 897 ainda aguardam alguma medida administrativa para regularização. Dentro desse grupo, 582 não tiveram nenhum avanço no início do processo de demarcação. Em 2025, nove Terras Indígenas tiveram relatórios de identificação e delimitação publicados pela Fundação Nacional do Índio (Funai), dez receberam portarias declaratórias do Ministério da Justiça, sete foram homologadas e cinco registradas como patrimônio da União, concluindo a regularização fundiária.
O relatório relaciona o cenário de 2025 às disputas políticas e jurídicas envolvendo direitos territoriais indígenas, incluindo a Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal. O Governo Federal destacou que a proteção dos povos indígenas depende da garantia de seus territórios e ressaltou a retomada da política de demarcação desde 2023. Segundo nota oficial, 20 Terras Indígenas foram homologadas neste período, totalizando mais de 3,2 milhões de hectares, além de outras medidas em diferentes etapas de demarcação.
Também foram realizados processos de desintrusão em 12 Terras Indígenas, beneficiando mais de 67 mil indígenas e protegendo 27,5 milhões de hectares. O governo reforçou que a redução da violência contra os povos indígenas exige ações constantes de demarcação, proteção territorial, combate a invasões e atividades ilegais, além do fortalecimento dos órgãos públicos e da responsabilização dos autores dos crimes.
