Rede Katahirine e o cinema das mulheres indígenas
Quantas línguas cabem no cinema brasileiro? Essa pergunta guia o lançamento do livro “Ler o vento, filmar o mundo: Pesquisa-mapeamento do cinema das mulheres indígenas no Brasil”, apresentado durante o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, realizado no Cine Brasília, em Macapá (AP). A obra sintetiza o trabalho do coletivo Katahirine, que reúne e fortalece cineastas indígenas em todo o país.
A pesquisa envolveu 60 realizadoras de 40 povos indígenas, falantes de 35 línguas originárias e com trajetórias que abrangem todas as regiões do Brasil. O estudo apresenta um diagnóstico detalhado da presença dessas cineastas, que participam ativamente das telas nacionais e internacionais, mas enfrentam dificuldades estruturais, linguagens pouco inclusivas e obstáculos burocráticos para acesso a recursos financeiros.
A constelação Katahirine e seu impacto
Na língua Manchineri, Katahirine significa “constelação”. A metáfora traduz a rede que oferece apoio, visibilidade e autonomia para mulheres realizadoras originárias. Com 92 cineastas de 48 povos brasileiros e três de nações vizinhas — Bolívia, Chile e Equador —, a rede atravessa biomas como Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pampa, conectando territórios ancestrais e narrativas diversas.
O movimento nasceu em 2022, durante um encontro de realizadoras indígenas no Acre, com o Instituto Catitu como parceiro fundamental, instituição pioneira na formação e estímulo ao audiovisual feminino indígena. A cineasta Moiara Kaxuyana, natural de Macapá (AP) e oriunda dos povos Kaxuyana e Tiriyó, destaca que o livro foi resultado de uma pesquisa que valoriza as mulheres para além dos números, reconhecendo suas múltiplas identidades como mães, benzedeiras e líderes comunitárias unidas pela prática do cinema.
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Desafios na circulação e produção audiovisual
O levantamento revela que mais de 73% das cineastas atuam profissionalmente, conciliando suas responsabilidades comunitárias e o registro dos saberes ancestrais. Apesar de 81% já terem exibido seus trabalhos em festivais, 61% enfrentam dificuldades para se inscrever em editais, muitas vezes devido a barreiras linguísticas, falta de acesso à internet e burocracia documental.
Essa realidade evidencia que a circulação do cinema indígena segue uma lógica própria, com exibições tanto nas aldeias quanto em grandes eventos, fortalecendo a memória e desconstruindo estigmas históricos. Para essas cineastas, devolver as imagens para suas comunidades é prioridade máxima, reafirmando o vínculo entre cinema e território.
Indicadores e políticas públicas para o cinema indígena
A fundadora do Instituto Catitu, Mari Corrêa, destaca que o mapeamento sistemático é essencial para romper a invisibilidade e embasar políticas públicas eficazes. O estudo envolveu entrevistas detalhadas conduzidas pelas próprias mulheres da rede, abordando formação, criação, circulação, desafios financeiros e preservação de acervos.
Os dados apontam que 53,3% das cineastas vivem em aldeias, 40% em cidades e 6,7% transitam entre esses espaços, revelando uma diversidade territorial que desafia estereótipos. Além disso, 58,3% são mães, e 28,33% dependem de familiares para viajar, evidenciando como redes de parentesco influenciam a produção e circulação audiovisual.
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Cinema indígena feminino: ética, estética e memória
A Rede Katahirine também propõe diretrizes para um audiovisual ético, estimulando parcerias respeitosas entre comunidades indígenas e o setor audiovisual, prevenindo práticas discriminatórias e reconhecendo os modos indígenas de fazer cinema.
Barbara Matias Kariri, cineasta e coordenadora da rede, ressalta que o cinema produzido pelas mulheres indígenas é um instrumento de documentar violências, fortalecer autoestima e provocar a linguagem cinematográfica. Ela aponta que esse cinema não é homogêneo, refletindo a diversidade cultural e os tempos das comunidades, incluindo práticas espirituais que moldam uma estética própria centrada na oralidade e na relação com o território.
Larissa Tukano, realizadora do Amazonas, destaca que o cinema indígena nasce de uma relação direta com o cotidiano, diferindo das representações externas que muitas vezes são distantes e estereotipadas. Para ela, o processo é coletivo e respeita os sistemas próprios de cada comunidade, preservando memórias que podem se perder com o falecimento de anciãos.
Além disso, as produções oferecem retorno para as aldeias, contribuindo para o reconhecimento de patrimônios culturais, como o sistema agrícola do Rio Negro, valorizando o conhecimento material e imaterial dos povos indígenas.
