Avanço do garimpo nas terras indígenas da Amazônia
A atividade de garimpo em terras indígenas (TIs) da Amazônia apresentou um crescimento alarmante de 562% entre 2016 e 2024, tornando esses territórios a categoria fundiária mais impactada proporcionalmente pela mineração ilegal. Essa expansão ocorre enquanto as populações indígenas enfrentam eventos climáticos extremos, intensificados em anos de El Niño, caracterizados por grandes secas e ondas de calor. A combinação entre o avanço do garimpo e esses fenômenos climáticos eleva os riscos para os territórios, a saúde e os modos de vida indígenas.
Riscos socioambientais e contaminação dos recursos hídricos
Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) detalham essa convergência de ameaças na nota técnica “Entre conquistas e riscos compostos: por que o futuro ancestral da Amazônia está ameaçado”, publicada em 15 de agosto. Entre 1985 e 2024, a área de garimpo na Amazônia Legal aumentou 20 vezes, enquanto dentro das terras indígenas esse crescimento foi de 24 vezes, passando de cerca de 1,5 mil para mais de 36 mil hectares.
O impacto ultrapassa as áreas diretamente exploradas: embora 19 terras indígenas estejam com garimpo em seu interior, 147 TIs — cerca de 37% do total na Amazônia — estão inseridas em bacias hidrográficas afetadas pela atividade. Cerca de 40% dos garimpos localizados fora das TIs ficam a menos de 50 quilômetros de seus limites, o que amplia os riscos de contaminação por mercúrio nos rios usados para abastecimento, pesca e práticas culturais. Essa contaminação persiste por anos, afetando diversas gerações.
Dimensão social e cultural das ameaças
Patrícia Pinho, diretora adjunta de Ciência do IPAM e uma das autoras da nota técnica, destaca que o garimpo não precisa estar dentro das terras indígenas para ameaçar as comunidades. A contaminação se espalha pelas bacias hidrográficas e soma-se a eventos extremos como secas, incêndios e enchentes, comprometendo recursos essenciais para o sustento indígena.
Leia também: Homem é denunciado por liderar garimpo ilegal em terras indígenas de Rondônia
Leia também: Proteção Legal para Zonas de Amortecimento nas Terras Indígenas da Amazônia é Urgente, aponta Estudo
Alcebias Sapará, coordenador executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), ressalta que os impactos do garimpo vão além do ambiental e afetam a vida social e cultural das comunidades. Além da degradação ambiental, o avanço do garimpo traz um aumento na presença de organizações criminosas e circulação de drogas, alterando profundamente a rotina dos povos indígenas e elevando a vulnerabilidade territorial.
Para Sapará, os danos atingem a água, a terra e os espaços sagrados, comprometendo não apenas a sobrevivência física, mas também as dimensões culturais e espirituais ligadas ao território. Ele enfatiza que lugares considerados berços sagrados, como igarapés e rios, são afetados, assim como a alimentação tradicional, em um cenário que vai além das mudanças climáticas.
Sobreposição de garimpo e eventos climáticos extremos
As terras indígenas Kayapó, Munduruku e Yanomami concentram 89% de toda a área garimpada dentro das TIs, com 52%, 23% e 13% respectivamente. Os municípios associados a esses territórios registraram 188 desastres climáticos entre 2000 e 2024, evidenciando uma sobreposição entre mineração ilegal e eventos extremos. Essa interação configura riscos compostos, quando diferentes ameaças se somam e ampliam seus impactos.
Secas severas dificultam o acesso à água, alimentos e serviços de saúde, enquanto o garimpo intensifica a contaminação por mercúrio e degradação dos ecossistemas aquáticos, reduzindo a capacidade de recuperação das comunidades e aumentando a possibilidade de danos irreversíveis. O pesquisador do IPAM Ray Pinheiro afirma que essas ameaças precisam ser enfrentadas de forma integrada para proteger os povos indígenas.
Leia também: Investigação sobre caso policial do Crime Organizado Terras Indígenas Amazônia
Leia também: Mudanças no Garimpo Ilegal: Novas Táticas para Driblar Fiscalização em Terras Indígenas
Medidas para proteção e adaptação das terras indígenas
A demarcação das terras indígenas é fundamental, mas insuficiente para enfrentar esses riscos complexos. A proteção territorial deve ser acompanhada de ações permanentes de adaptação às mudanças climáticas e combate à mineração ilegal. A nota técnica do IPAM recomenda consolidar e acelerar a proteção das TIs, fortalecer a fiscalização e a rastreabilidade do ouro, inclusive em âmbito internacional.
Além disso, propõe a implementação de Planos de Adaptação Indígenas e o financiamento de sistemas de monitoramento comunitário para água, mercúrio, fogo e saúde. Também destaca a importância de reconhecer perdas materiais e imateriais nas políticas públicas, e priorizar municípios com alta vulnerabilidade que abrigam terras indígenas.
Os pesquisadores reforçam que os impactos das ameaças ultrapassam dimensões econômicas. Afetam conhecimentos tradicionais, práticas culturais, relações espirituais com o território e a permanência das novas gerações nas aldeias. Proteger os povos indígenas significa preservar sistemas de conhecimento, governança e manejos que sustentam a resiliência climática da Amazônia.
