Baixa representatividade de pretos, pardos e indígenas no corpo docente da USP
Na Universidade de São Paulo (USP), apenas 4,3% dos docentes se declaram pretos, pardos ou indígenas, uma proporção que diminui ainda mais entre os professores titulares, que ocupam o topo da carreira acadêmica. Dos 1.091 docentes que alcançaram essa posição, somente cinco se identificam como pretos, dez como pardos e um como indígena, totalizando 1,5% do grupo. Esses dados são extraídos do Anuário Estatístico da USP referente a 2025.
Considerando o total de 5.482 professores, que inclui titulares, associados e doutores, a universidade registra 62 pretos, 167 pardos e cinco indígenas. No nível inicial da carreira, entre os docentes doutores, pretos, pardos e indígenas somam 6,3%, percentual que cai para 3,6% entre os associados e atinge 1,5% entre os titulares. A maioria esmagadora dos titulares, 93,9%, se declara branca.
Política afirmativa e seus limites na contratação de docentes
Desde maio de 2023, a USP instituiu uma política de ações afirmativas para a contratação de professores e funcionários, reservando 20% das vagas para candidatos pretos, pardos e indígenas (PPI) em concursos com pelo menos três vagas para o mesmo cargo e especialidade. No entanto, a maioria dos concursos para professores oferece uma ou duas vagas, o que dificulta a aplicação direta da reserva.
Nesses casos, a universidade concede um bônus na pontuação dos candidatos PPI, calculado a partir da diferença entre o desempenho médio desses candidatos e dos demais concorrentes. Essa forma de aplicação da política tem sido alvo de críticas, pois permite que departamentos realizem sucessivos concursos de uma vaga sem a obrigatoriedade de reserva direta para candidatos negros ou indígenas.
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Em comparação, a Universidade Federal do ABC (UFABC) adotou uma política mais abrangente, reservando 40% das contratações docentes para pessoas negras em 2025. Além disso, a UFABC reúne vagas de diferentes subáreas e transfere para editais posteriores aquelas não preenchidas, evitando que a divisão dos concursos inviabilize as cotas. Em 2024, 12,5% dos professores da UFABC se declaravam negros, quase três vezes mais do que a USP no mesmo período.
Avanços e desafios na ampliação da diversidade docente
Desde a implementação da política afirmativa, o número de professores PPI na USP aumentou de 140, em 2023, para 234, em 2025, o que representa um crescimento de 67%. A participação desses docentes no corpo docente geral subiu de 2,7% para 4,3%. Contudo, esse avanço não pode ser atribuído exclusivamente a novas contratações, já que atualizações cadastrais e mudanças na autodeclaração racial também influenciam esses números.
A resolução que institui a política estabelece a meta de alcançar uma participação de pretos, pardos e indígenas semelhante à da população paulista, que é de aproximadamente 41,1%. Também determina que relatórios periódicos sejam produzidos e que as regras sejam revistas após três anos, prazo que será completado em 2026.
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Controvérsias recentes e demandas judiciais
Em 2025, a Defensoria Pública ajuizou uma ação contra a USP, questionando a aplicação das bonificações e cotas apenas em concursos publicados após a adoção da política, alegando violação de princípios constitucionais e administrativos. Além disso, o Coletivo de Docentes Negras e Negros da USP publicou uma nota alertando que novas vagas para professores PPI podem levar de 20 a 30 anos para surgir, devido ao ritmo lento de contratações condicionado às aposentadorias e outras saídas.
O caso da professora Érica Cristina Bispo, aprovada em primeiro lugar para uma vaga de professor de literaturas africanas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), também evidenciou as tensões em torno da política. Seis candidatos, que se declararam brancos, recorreram do resultado, alegando suposta proximidade da candidata com a banca examinadora. O Ministério Público investigou e arquivou o caso por falta de evidências de favorecimento.
Mesmo assim, o Conselho Universitário anulou o concurso em março de 2025. A USP abriu uma nova seleção para a vaga, que foi suspensa pela Justiça até o julgamento definitivo da ação apresentada por Érica. Em março de 2026, o Tribunal de Justiça de São Paulo ressaltou que nem o Ministério Público nem a faculdade haviam identificado irregularidades e que a candidata obteve a maior nota na prova escrita. A decisão judicial não confirmou a contratação nem anulou definitivamente a decisão da USP, apenas suspendeu o novo concurso enquanto a disputa sobre a primeira seleção não for resolvida.
