Relatório revela escalada da violência contra povos indígenas
O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) apresentou, em 13 de agosto, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em Brasília (DF), o relatório “Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil – dados de 2025”. O documento aponta um crescimento significativo nos assassinatos e conflitos territoriais, associando a violência à pressão econômica sobre as terras indígenas e à lentidão das demarcações. O levantamento expõe uma guerra pela terra que atravessa o campo brasileiro, com impacto direto sobre as comunidades originárias.
O secretário-executivo do Cimi, Luis Ventura Fernández, ressaltou a articulação entre o latifúndio, grupos armados e a repressão policial, que atuam em conjunto contra comunidades indígenas, quilombolas e camponesas. “A violência na ponta, que mata, tem como protagonista o latifúndio e seus capangas”, afirmou.
Dados alarmantes escancaram o cenário de violência
Em 2025, foram registrados 258 assassinatos de indígenas, representando uma alta de 22,3% em relação ao ano anterior e superando a média anual de 199 ocorrências durante o governo militar de Jair Bolsonaro. Além disso, o Cimi contabilizou 38 tentativas de assassinato, 46 casos de racismo, 33 lesões corporais, 25 episódios de violência sexual, 27 ameaças, 18 ameaças de morte e 19 abusos de poder, totalizando 474 ocorrências contra pessoas indígenas.
O relatório também destaca o avanço da violência contra o patrimônio e a omissão do poder público. Assassinatos, agressões, invasões territoriais e a falta de assistência compõem as diversas frentes do genocídio continuado contra os povos originários, impulsionado pela ofensiva do latifúndio agroexportador e do Estado burocrático-latifundiário.
Articulação entre latifúndio, policiais e grupos armados
O grupo “Invasão Zero”, surgido em 2023, é apontado como um bando paramilitar ligado ao latifúndio, atuando contra camponeses, indígenas e quilombolas. Investigações documentaram a participação de latifundiários, parlamentares e policiais em ataques, como o ocorrido em 2024 na Terra Indígena Caramuru-Catarina Paraguassu, na Bahia, que resultou no assassinato da indígena Nega Pataxó.
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No fórum nacional do grupo, realizado em 2025, órgãos oficiais reconheceram indícios de financiamento por grandes latifundiários. A Liga dos Camponeses Pobres (LCP) definiu o cenário como uma guerra pela terra no Brasil.
Lideranças indígenas relatam ataques e criminalização
A violência afeta principalmente jovens indígenas, com 27,1% das vítimas até 19 anos e mais da metade abaixo dos 30 anos. Em Mato Grosso do Sul, Boninho Kaiowá denunciou o assassinato de um jovem em agosto, resultado de uma ação de vingança do latifúndio.
Além dos ataques, agentes policiais invadiram reservas, prenderam indígenas sem justificativa e criminalizaram a luta territorial, acusando-os falsamente de formação de quadrilha e posse de armas. Marta Tipuici, liderança Manoki, relatou ameaças e intimidações constantes contra sua comunidade.
Outra liderança Guarani-Kaiowá denunciou a grilagem de terras e a exigência de indenizações pelo latifundiário responsável, que condiciona a saída do território ao pagamento, ameaçando a comunidade em caso de resistência.
Retomadas como estratégia diante da inércia estatal
O Cimi destaca que as retomadas são uma resposta histórica dos povos indígenas para garantir seus direitos territoriais diante da demora do Estado em realizar demarcações. Luis Ventura afirmou que essas ações pressionam o Estado a reagir, seja pela repressão ou pela aceleração das demarcações, tornando-se um instrumento importante na luta pela terra.
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Boninho Kaiowá afirmou que as comunidades organizam sua própria segurança diante da omissão e violência estatal. Marta Tipuici relatou o uso de protocolos de proteção, monitoramento por câmeras e cuidado na circulação fora do território para garantir a segurança dos povos.
Pressão minerária intensifica ameaças aos territórios
Além do latifúndio, a mineração ilegal e a exploração de recursos naturais agravam a situação nas terras indígenas. Em 2025, foram registrados 210 casos de invasões e danos em 151 territórios, incluindo áreas já regularizadas.
Luis Ventura alertou que a regulamentação da mineração pretende permitir a concessão dessas terras à iniciativa privada, o que representa uma invasão completa dos territórios indígenas e ameaça o projeto de vida dos povos originários.
União entre povos e movimentos pela terra
Voninho, liderança Guarani-Kaiowá, destacou a cooperação entre indígenas, camponeses sem terra e quilombolas para enfrentar as ameaças do latifúndio. A Liga dos Camponeses Pobres também reforça essa aliança contra o latifúndio semifeudal, base do atraso e da exploração no campo brasileiro.
A autodefesa organizada, inclusive armada, é apontada como fundamental para garantir a segurança das comunidades diante dos ataques e da conivência das forças de repressão oficiais. Em 2024, a resistência dos posseiros de Barro Branco, em Jaqueira (PE), exemplificou essa mobilização.
