Seca severa atinge territórios indígenas no Amazonas
A seca severa tem avançado sobre terras indígenas no Brasil, com destaque para áreas do Amazonas. Dados recentes do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que o número de territórios indígenas afetados pela seca severa subiu de três, em junho, para 17 em julho. Entre os locais mais impactados estão os distritos sanitários especiais indígenas (Dseis) do Alto Rio Negro e de Parintins, situados no Amazonas.
Contexto nacional de intensificação da seca
O avanço da seca ocorre em um cenário de agravamento do fenômeno em todo o país. Em julho, as cinco regiões brasileiras registraram algum grau de seca, e ao menos 157 municípios foram classificados em situação de seca severa. Essa condição se caracteriza pela redução significativa da umidade do solo, estresse hídrico da vegetação e impactos diretos na produção agrícola.
José Antonio Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, alerta para a possibilidade de piora nos próximos meses. Segundo ele, observa-se uma tendência de ressecamento generalizado, com diminuição das chuvas e aumento das temperaturas. Esse desequilíbrio entre precipitação e evaporação pode agravar ainda mais as condições de seca no país.
Impactos na Amazônia: vulnerabilidade das comunidades tradicionais
Na Amazônia, a seca traz consequências preocupantes para os povos que dependem diretamente dos rios e da floresta. Indígenas, ribeirinhos, extrativistas, pescadores artesanais e agricultores familiares estão entre os grupos mais vulneráveis à redução das chuvas e ao rebaixamento dos níveis dos rios.
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Nos últimos anos, a região enfrentou secas históricas, especialmente em 2023 e 2024, quando rios de diversos municípios alcançaram níveis mínimos recordes. Essa situação isolou comunidades, prejudicou o transporte fluvial e dificultou o acesso a alimentos, água e medicamentos.
O boletim divulgado pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) no final do ano passado destacou os efeitos das secas e queimadas sobre os povos tradicionais. Para Toya Manchineri, coordenador-geral da entidade, os eventos recentes indicam uma mudança profunda nas condições ambientais. Segundo ele, “o que vivenciamos não foi uma estiagem isolada, mas um colapso ambiental em curso”. Ele ressalta que a crise climática se manifesta no cotidiano das comunidades: “Quando o rio seca, o peixe desaparece, o barco não chega e a floresta, antes úmida, passa a queimar.”
Avanço da seca em assentamentos rurais
Além dos territórios indígenas, o Cemaden identificou um avanço significativo da seca em assentamentos rurais. De junho para julho, as áreas sob seca extrema aumentaram de duas para 44, enquanto os assentamentos em condição de seca severa passaram de 102 para 309. Os estados do Pará, Tocantins, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas concentram a maior parte das áreas afetadas.
El Niño pode agravar situação
O fortalecimento do fenômeno El Niño traz preocupação adicional ao cenário. A Organização Meteorológica Mundial (OMM) prevê que o fenômeno deve se intensificar entre agosto e outubro de 2026. O El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o que altera a circulação atmosférica e a distribuição das chuvas.
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Historicamente, El Niño de forte intensidade está associado à redução das precipitações e ao aumento das temperaturas, principalmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. O pesquisador Humberto Alves Barbosa, da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), explica que o fenômeno deve afetar a umidade do solo e a vazão dos rios, tornando essas regiões mais vulneráveis a secas prolongadas, secas-relâmpago e queimadas.
Seca será foco na COP17
A intensificação das secas estará entre os principais temas da 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), que acontece de 17 a 28 de agosto em Ulaanbaatar, na Mongólia. Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação (UNCCD), a frequência e duração das secas aumentaram quase 30% desde 2000. Projeções indicam que, até 2050, três em cada quatro pessoas poderão ser afetadas pelo fenômeno.
A demanda global por água também pode superar a oferta em até 40% até 2030. Yasmine Fouad, secretária executiva da UNCCD, destaca a necessidade de ampliar medidas preventivas, indo além do reconhecimento da seca como risco global. Ações sugeridas incluem fortalecimento dos sistemas de monitoramento e alerta precoce, recuperação de áreas degradadas, gestão integrada dos recursos hídricos e aumento da capacidade de adaptação das populações vulneráveis.
As comunidades indígenas no Amazonas e outras regiões do Brasil permanecem na linha de frente dos impactos da seca severa, enfrentando desafios diretos à sua sobrevivência e modo de vida tradicional.
