Marcha pela Terra: Uma Luta Coletiva em Brasília
Cerca de 5 mil indígenas, representando mais de 200 etnias, tomaram as ruas de Brasília nesta terça-feira, durante a 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL 2026). A manifestação, considerada a maior mobilização dos povos originários do Brasil, teve início na Esplanada dos Ministérios e percorreu cerca de 6 quilômetros até o Congresso Nacional. Essa mobilização une vozes de várias etnias, incluindo os Tikuna, Makuxí e Guajajara, todos se reunindo em um ato de resistência contra as ameaças aos direitos constitucionais indígenas.
A marcha foi marcada por sua natureza pacífica e pelo clamor por justiça. Os manifestantes exigem o fim de propostas que possibilitam a exploração econômica de terras tradicionais, especialmente por meio da mineração e de grandes empreendimentos. Entre as principais críticas está a tese do Marco Temporal, que limita o direito à terra a áreas ocupadas a partir de outubro de 1988. Apesar de uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que declarou a tese inconstitucional em 2023, o Senado avançou com uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) em 2025, buscando restabelecer essa restrição, que agora aguarda análise na Câmara dos Deputados.
A Ameaça aos Direitos Indígenas e ao Meio Ambiente
Os líderes indígenas afirmam que essa emenda representa um verdadeiro “golpe” contra as comunidades e um obstáculo à preservação ambiental, crucial para o futuro do Brasil e o enfrentamento da crise climática. Além de lutar contra iniciativas legislativas prejudiciais, o movimento também pressiona o governo federal a acelerar a homologação de novos territórios. De acordo com dados da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), entre 2023 e o final de 2025, foram validados 20 novos territórios, totalizando 2,5 milhões de hectares sob proteção.
Entretanto, lideranças como Dinamam Tuxá, coordenador da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), ressaltam que ainda existem cerca de 110 áreas aguardando análise para demarcação. A lentidão nesse processo tem contribuído para aumentar a vulnerabilidade e a violência contra as lideranças das comunidades em várias partes do país. Com isso, o movimento busca “aldear a política”, incentivando a presença de representantes indígenas em cargos públicos e decisões que afetam seu cotidiano.
Oração e Determinação: Um Chamado à Ação
Durante o ato, autoridades como Joenia Wapichana enfatizaram a necessidade de fortalecer órgãos como a Funai e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que dependem de orçamento adequado e maior representatividade. Com o uso de tintas naturais, como urucum e jenipapo, os povos originários enalteceram a sua cultura e reafirmaram sua posição de não aceitar a venda de seus territórios. Para eles, a demarcação de terras é a única garantia de sobrevivência para as futuras gerações.
A Apib também destaca que a proteção dos territórios indígenas se traduz em proteção climática, uma vez que esses territórios são responsáveis por aproximadamente 80% da biodiversidade preservada na Amazônia, segundo informações do Instituto Socioambiental (ISA). A pressão coletiva, portanto, surge como um potencial catalisador para transformações significativas na política nacional, assegurando a defesa dos direitos indígenas e a conservação ambiental.
