O Povo Yanomami e Sua Habitat na Amazônia
Os Yanomami, um dos maiores grupos indígenas relativamente isolados da América do Sul, habitam a região de fronteira entre o Brasil e a Venezuela. Com uma população em torno de 35.000 pessoas, eles vivem em uma vasta área de floresta amazônica equivalente ao tamanho do estado de Pernambuco. A rotina deles é marcada por práticas sustentáveis que incluem a agricultura de coivara, a caça, a pesca e a coleta de uma impressionante variedade de 500 plantas comestíveis, além da construção de casas circulares conhecidas como shabonos, que são projetadas para se integrar harmoniosamente ao ambiente. Neste contexto, a medicina tradicional, baseada em mais de 200 plantas medicinais, também desempenha um papel crucial na manutenção da saúde da comunidade.
Um estudo realizado em 2018 por uma equipe de pesquisadores internacionais, que passou meses vivendo ao lado dos Yanomami, revelou uma combinação notável de fatores como diversidade alimentar, atividade física intensa e baixa incidência de doenças que são comuns em sociedades urbanas. Essa pesquisa mostrou que a dieta dos Yanomami, composta por 500 espécies de plantas, está diretamente ligada à sua saúde, apresentando ausência de doenças como diabetes tipo 2, obesidade e hipertensão. A permanência dessas práticas por milênios não é vista como primitivismo, mas como um sistema eficiente e ajustado ao seu ambiente, essencial para a sobrevivência em um dos ecossistemas mais desafiadores do planeta.
Estratégias Alimentares dos Yanomami
A alimentação dos Yanomami é fruto de uma combinação de três estratégias principais. A primeira delas é a agricultura de coivara, que envolve a criação de clareiras para o cultivo de mandioca, banana, batata-doce e milho. Após um período de dois a três anos, essas áreas são deixadas para se regenerar, enquanto novas clareiras são abertas em outros locais.
A segunda parte da estratégia é a caça e a pesca. Os Yanomami capturam uma variedade de animais, incluindo macacos, antas, queixadas e jacarés. Além disso, utilizam venenos naturais de plantas para pescar, uma técnica que paralisa temporariamente os peixes sem prejudicar o ecossistema aquático. Por fim, a coleta de frutas, castanhas, larvas e mel é realizada com base em um profundo conhecimento das estações do ano e das localizações dos alimentos na floresta, resultando em uma dieta rica e diversificada.
De acordo com os dados, os Yanomami conhecem mais de 500 espécies de plantas comestíveis e podem coletar até 15 kg de alimentos por dia. Essa dieta é composta por uma média de 27 g de fibras diariamente, em comparação com apenas 12 g na dieta ocidental média.
A Engenharia por Trás dos Shabonos
As moradias tradicionais dos Yanomami, conhecidas como shabonos, são uma demonstração impressionante da engenharia adaptada ao clima da Amazônia. Essas estruturas circulares, que podem abrigar até 400 pessoas e medir até 80 metros de diâmetro, são construídas com estacas de madeira dura e cobertas por folhas de palmeira. A inclinação do telhado, que é de 45°, é uma característica fundamental que garante a adequada drenagem da água da chuva, evitando que a palha se decomponha rapidamente.
O centro do shabono é aberto, o que permite a circulação de ar e proporciona um ambiente fresco, essencial para o conforto dos habitantes. Além disso, as fogueiras são utilizadas para delimitar espaços e cozinhar, além de afastar mosquitos e iluminar os ambientes. Os Yanomami também conhecem técnicas para escolher madeiras adequadas que permitem que o fogo queime por até 8 horas sem a necessidade de reposição constante de lenha.
Práticas de Medicina Tradicional e Conhecimento Ecológico
A medicina dos Yanomami é um sistema robusto, baseado no uso de mais de 200 plantas medicinais, cada uma com uma aplicação específica. Por exemplo, a casca da quina é utilizada em forma de chá para tratar febres, enquanto a seiva conhecida como sangue de dragão é aplicada em feridas, com estudos científicos reconhecendo suas propriedades antibacterianas e cicatrizantes.
A escassez de cáries dentárias, quase inexistentes entre os Yanomami, é atribuída à ausência de açúcar processado na dieta e à mastigação de fibras duras, que ajudam a manter os dentes limpos. Além disso, um dos aspectos mais fascinantes de sua cultura é o seu sistema de orientação, que se compara a um “GPS mental”. Este sistema se baseia na observação da posição do sol, nos sons das aves e na memorização de marcos naturais, permitindo que eles se locomovam com destreza na floresta. Um teste realizado revelou que um Yanomami acertou a direção norte 19 de 20 vezes, superando, com folga, um guia ocidental profissional.
