Nova Oportunidade para Povos Tradicionais
Em um passo histórico, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) anunciou a reserva de vagas para indígenas e quilombolas em seu concurso de admissão à carreira de diplomata. O edital, divulgado na última quinta-feira (29), oferece um total de 60 vagas, com um salário inicial de R$ 22.558. Essa é a primeira seleção sob a nova lei de cotas, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no ano passado. As vagas incluem 39 destinadas à ampla concorrência, três para pessoas com deficiência, 15 para candidatos negros, duas para indígenas e uma para quilombolas.
Os interessados poderão se inscrever entre 4 e 25 de fevereiro, através da página do Cebraspe, a banca organizadora. A taxa de inscrição é de R$ 229, mas é possível solicitar isenção para aqueles que estão registrados no Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico).
Definições Importantes
De acordo com as regras do edital, uma pessoa é considerada indígena se se identifica como parte de uma coletividade indígena e é reconhecida por seus membros, independentemente de residir em território indígena. Esse conceito está alinhado com a Constituição Federal e normas internacionais como a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Para os candidatos quilombolas, a definição é de pessoas que pertencem a um grupo étnico-racial, com base em autoatribuição e histórico próprio, conforme o Decreto nº 4.887/2003.
O concurso também prevê um processo de verificação documental para candidatos indígenas e quilombolas, que será conduzido por uma comissão composta por especialistas, que inclui majoritariamente membros das comunidades tradicionais.
A Importância da Inclusão
A ministra dos Povos Indígenas, Sonia Guajajara, destacou a relevância deste marco histórico, afirmando que a inclusão de indígenas no Itamaraty concretiza um sonho coletivo. “Essa garantia de vagas é fundamental para que nossos povos estejam presentes em espaços de decisão, levando nossos conhecimentos culturais e históricos para o âmbito diplomático”, afirmou à Agência Brasil.
Guajajara ressaltou que essa iniciativa representa um fortalecimento das lideranças indígenas em funções de importância no governo. “Estamos estabelecendo um diálogo direto com o Estado, tornando nossa voz mais audível tanto no Brasil quanto no exterior. O governo brasileiro está dando passos significativos nesse sentido”, declarou.
Experiências Anteriores e Ações Afirmativas
No ano anterior, jovens líderes indígenas tiveram a oportunidade de representar suas comunidades nas negociações da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), realizada em Belém. Essa experiência visou colocar as questões das comunidades tradicionais no centro das decisões globais. As ações afirmativas, embora debatidas no Brasil, estão sendo vistas como essenciais para promover uma mudança no cenário histórico do país, segundo Ronaldo dos Santos, secretário de Políticas para Quilombolas e Outros Povos Tradicionais do Ministério da Igualdade Racial.
Ele observa que a inclusão de indígenas e quilombolas na lei de cotas representa um avanço crucial, ao reconhecer esses grupos como sujeitos de direitos e trazendo uma nova realidade para o serviço público. “Nada é mais emblemático do que a carreira diplomática do Itamaraty para evidenciar a importância dessa representatividade em cargos estratégicos do estado”, comentou.
Oportunidades de Estudo
Os candidatos que optarem por concorrer às vagas destinadas a indígenas também poderão solicitar uma bolsa-prêmio oferecida pelo Programa de Ação Afirmativa do Instituto Rio Branco. Essa iniciativa destina-se a financiar os estudos preparatórios para o concurso, considerado um dos mais desafiadores do país. Além disso, a bolsa-prêmio está disponível para candidatos negros, ampliando as oportunidades de inclusão e formação de novos diplomatas.
