MPF Assina Portaria para Acompanhar Processos da Coca-Cola
O Ministério Público Federal (MPF) em Mato Grosso do Sul deu início a uma investigação sobre o uso da imagem de indígenas das etnias Kinikinau e Terena pela Coca-Cola FEMSA Brasil. O foco é a possível exploração da identidade cultural desses grupos para promover a diversidade e aumentar a nota da marca em busca de certificação internacional. A denúncia surgiu após a participação de representantes indígenas em reuniões relacionadas ao processo de certificação da fábrica localizada em Campo Grande, o que gerou questionamentos sobre a legitimidade e o consentimento dado para o uso dessas imagens.
A apuração foi oficializada por meio de uma portaria, assinada pelo procurador da República Luiz Eduardo Camargo Outeiro Hernandes, no início deste ano. A denúncia que originou a investigação foi registrada diretamente no MPF, levantando questões sobre como a Coca-Cola se beneficiou da presença dos indígenas no processo de certificação conhecido como AWS, que se concentra na gestão da água.
Coca-Cola Responde às Acusações
O MPF, antes de formalizar o procedimento, buscou informações tanto da Coca-Cola FEMSA Brasil quanto da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) em Campo Grande. As perguntas giravam em torno da razão pela qual os indígenas foram convidados para as reuniões, como se deu a dinâmica desses encontros e se houve consentimento para o uso de imagens ou referências culturais. Em resposta, a Coca-Cola afirmou que mantém um padrão internacional para sua certificação, que inclui diálogo com diversas comunidades, incluindo aquelas que residem nas proximidades de suas fábricas.
A empresa detalhou que em agosto de 2025, representantes das etnias Kinikinau e Terena participaram de uma reunião cujo objetivo era compartilhar informações sobre suas operações, impactos ambientais, uso da água e critérios relacionados à certificação. No entanto, mesmo após as esclarecimentos prestados pela companhia, o MPF optou por continuar com o procedimento de investigação, buscando uma análise mais aprofundada do processo de certificação.
Próximos Passos da Investigação
A Coca-Cola FEMSA Brasil tem um prazo de dez dias úteis para atualizar o MPF sobre a fase atual da certificação AWS e deve apresentar documentação referente a eventuais outros contatos com as comunidades indígenas. Além disso, foi solicitado um relatório completo da auditoria presencial realizada na fábrica em 2025, assim como todos os documentos utilizados na tentativa de obter o selo internacional.
O procedimento de investigação terá uma duração inicial de um ano e visa esclarecer se houve ou não a utilização indevida da imagem e da identidade cultural dos povos Kinikinau e Terena. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Mato Grosso do Sul abriga aproximadamente 116 mil indígenas, sendo a etnia Terena a mais numerosa do estado, com cerca de 42 mil indivíduos. Em contraste, os Kinikinau são um grupo menor, contando com cerca de 600 habitantes, que ocupam áreas cedidas por comunidades Terena e Kadiwéu, nos municípios de Porto Murtinho, Miranda e Nioaque.
