Um Marco para a Comunidade Yanomami
A primeira unidade de soberania alimentar da Terra Indígena Yanomami foi oficialmente inaugurada na segunda-feira (2), na comunidade de Sikamabiu, situada na região do Baixo Mucajaí, em Roraima. Essa iniciativa representa um avanço significativo na melhoria das condições de vida no território, ao garantir o acesso regular a alimentos saudáveis, respeitando os modos de vida tradicionais e colaborando para a recuperação ambiental das áreas afetadas pelo garimpo ilegal.
O evento contou com a presença do ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), Wellington Dias. Ele anunciou um investimento de R$ 90 mil para o projeto, que faz parte de uma estratégia mais ampla de segurança alimentar na Amazônia. Durante a cerimônia, Dias lembrou a grave crise humanitária vivida anteriormente no estado. “Recordo do dia em que o presidente Lula esteve aqui em Roraima e a situação era de pessoas morrendo de fome. Hoje, estamos trabalhando para assegurar a alimentação e, com essa ação aqui e em várias outras comunidades em toda a Amazônia, garantimos que essas pessoas tenham o suporte necessário”, declarou o ministro.
Desdobramentos do Projeto de Soberania Alimentar
A unidade em Sikamabiu é apenas o começo de um projeto que prevê a instalação de outras sete estruturas de soberania alimentar até 2026. Essa ação deve beneficiar 18 comunidades Yanomami localizadas em regiões como Surucucu, Homoxi, Xitei, Lasasi, Ajarani, Olomai e Uxiu. O foco é devolver autonomia às comunidades, fortalecer a segurança alimentar e apoiar a reabilitação das áreas que sofreram com a exploração do garimpo.
Os recursos do MDS são geridos através de um Termo de Execução Descentralizada com a Embrapa Roraima, que é responsável pela implementação técnica do projeto. A iniciativa recebe ainda o apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima (IFRR), que participa da capacitação dos moradores da localidade.
Estrutura e Benefícios da Unidade de Produção
A unidade de produção em Sikamabiu conta com diversas instalações, incluindo um aviário com 100 galinhas e um viveiro capaz de abrigar 2 mil mudas de espécies nativas como açaí e cacau. Também há um tanque de compostagem para a produção de adubo natural e áreas destinadas ao cultivo de mandioca, batata e arroz, além de Sistemas Agroflorestais focados na recuperação de áreas degradadas.
O projeto também contempla a criação de peixes para o consumo da comunidade. Um tanque de 440 metros quadrados foi escavado, e dois açudes anteriormente utilizados pelo garimpo foram recuperados e transformados em criadouros. Os testes realizados confirmaram a ausência de mercúrio, permitindo a integração segura dessas áreas ao sistema produtivo, que agora abriga cerca de 4 mil filhotes de peixes.
Fortalecendo a Autonomia Local
A comunidade de Sikamabiu, que compreende aproximadamente 30 famílias e cerca de 400 indígenas, está experimentando uma transformação significativa. Onde antes operavam máquinas do garimpo ilegal, agora as atividades são voltadas para a produção de alimentos, respeitando os saberes e práticas tradicionais do povo Yanomami.
Além das iniciativas do MDS, o Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA) também tem contribuído. Foram instalados dez tanques elevados revestidos de forma impermeável para a criação de tambaqui, abrigando outros 4 mil filhotes. Essa ação, realizada em parceria com o IFRR, inclui a formação de 34 indígenas que serão responsáveis pelo manejo dos tanques, promovendo a autonomia local. A expectativa é que a produção de proteína animal atinja cerca de uma tonelada até o final de 2026.
Compromisso com os Direitos Humanos e Sustentabilidade
A agenda do Governo do Brasil em Roraima inclui ainda outras entregas nas terras Yanomami e na capital, Boa Vista. Dentre elas, destaca-se a inauguração do Centro de Referência em Direitos Humanos Yanomami e Ye’kwana, coordenado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, que visa atendimento especializado e proteção contra violações de direitos humanos.
Todas essas ações fazem parte do Plano de Ação para o Desenvolvimento Sustentável da Terra Indígena Yanomami, liderado pela Funai, que articula projetos de diferentes ministérios e órgãos federais. A Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil em extensão, abrange 9,6 milhões de hectares e abriga cerca de 31 mil indígenas.
