Um Novo Começo para a Comunidade Sikamabiú
A comunidade Sikamabiú, localizada na Terra Indígena Yanomami, está vivenciando um importante processo de reestruturação após os desafios impostos pela insegurança alimentar decorrente das atividades de garimpo ilegal. Recentemente, as famílias Ninam da região do Baixo Mucajaí iniciaram práticas produtivas para assegurar sua subsistência, com a inauguração de uma Unidade Demonstrativa de Referência (UDR) em 2 de outubro, em uma ação conjunta com diversos órgãos do Governo Federal.
A UDR foi concebida para dialogar com os modos tradicionais de vida dos Yanomami e integra várias iniciativas, como piscicultura, sistemas agroflorestais, um banco de sementes tradicionais, viveiro de mudas, aviário comunitário e compostagem. Essa estrutura não apenas visa à produção de alimentos, mas também promove o cuidado com o território. Um aspecto relevante desse projeto é a formação técnica de indígenas em manejo aquícola, permitindo que a comunidade conduza suas atividades de forma autônoma, respondendo assim à crise humanitária enfrentada nos últimos anos.
Ações Governamentais e Parcerias Estratégicas
Os projetos que compõem a UDR incluem o “Resgate e Preservação de Recursos Genéticos, Segurança e Soberania Alimentar”, desenvolvido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em colaboração com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), e o “Ensino, Pesquisa e Extensão em Piscicultura e Pesca Artesanal”, promovido pelo Instituto Federal de Roraima (IFRR) junto ao Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA). A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), através da Força-Tarefa Yanomami e Ye’kwana (FTYY), desempenha um papel crucial na articulação institucional, fornecendo apoio logístico e promovendo o diálogo com as lideranças locais.
Para Joenia Wapichana, presidenta da Funai, garantir a produção de alimentos é uma parte essencial na reconstrução das condições de vida nas comunidades indígenas. “Promover a segurança alimentar é assegurar que as comunidades possam produzir de forma contínua e sustentável”, enfatizou. Ela também ressaltou que a proteção do território é fundamental, afirmando que “combater o garimpo ilegal é uma obrigação constante do Estado, visto que impacta diretamente a saúde e a alimentação dos povos indígenas”.
Respostas da Comunidade e Expectativas Futuras
Luiza Xirixana, uma das lideranças da comunidade Sikamabiú, compartilhou seu descontentamento com a escassez de peixes e o impacto negativo do garimpo na alimentação local. “Com o garimpo, os peixes ficaram escassos e de qualidade inferior. Este projeto traz uma resposta valiosa para nossas necessidades”, afirmou. Ela destacou que a iniciativa não apenas fortalece a produção de alimentos, mas também ensina as crianças a cultivar seu próprio alimento, promovendo o aprendizado e a autonomia.
Gerson Xirixana, presidente da associação Texoli, apontou que o progresso feito pela comunidade é fruto de um esforço coletivo. “No início, havia ceticismo, mas agora todos estão envolvidos. A comunidade começa a perceber que é possível garantir comida para as famílias”, explicou. Yanameyka Evangelista de Lima Primo, chefe-geral da Embrapa, ressaltou que Sikamabiú é a primeira comunidade beneficiada pela iniciativa, que será estendida a outras áreas. “Aqui, implementamos estruturas essenciais para a base alimentar indígena, como tanques escavados e sistemas agroflorestais”, declarou.
Capacitação e Sustentabilidade
O foco do projeto é garantir a soberania e a segurança alimentar através do conhecimento compartilhado, com o objetivo de que os indígenas possam produzir seu próprio alimento de forma sustentável. A piscicultura, uma das áreas centrais da UDR, conta com dez tanques elevados em geomembrana, um tanque escavado de 400 m³, dois açudes integrados e a entrega de 8 mil alevinos. A expectativa é de que, até 2026, a produção alcance até uma tonelada de peixes, assegurando proteína para cerca de 400 indígenas. A água utilizada nos tanques também será reaproveitada para a fertirrigação das culturas agrícolas, fortalecendo assim a produção de alimentos.
Wellington Dias, ministro do MDS, destacou que iniciativas como essa são vitais para fortalecer a capacidade das comunidades em produzir e gerar renda. “Queremos que cada comunidade não apenas produza seu próprio alimento, mas que também possa vendê-lo, garantindo autonomia financeira”, disse. Medidas como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) visam assegurar que o alimento produzido permaneça na comunidade, estimulando a economia local.
A capacitação contínua também é uma parte fundamental do projeto. O IFRR tem se empenhado na formação em piscicultura e manejo sustentável, promovendo a autonomia indígena na gestão das estruturas. Rodrigo Barros, diretor do Campus Amajari, enfatizou que a educação é essencial para garantir que a comunidade possa conduzir suas atividades de maneira sustentada ao longo do tempo.
A inauguração contou com a presença de mais de 200 indígenas Yanomami, além de representantes de diversas instituições, incluindo a Funai e o Governo de Roraima, reforçando a importância da união entre o governo e a comunidade para enfrentar os desafios da segurança alimentar.
