Iphan e o Inventário da Cerâmica Terena
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) deu um passo importante para a valorização da cultura indígena ao iniciar o Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) focado nos Modos de Fazer a Cerâmica Terena, em Mato Grosso do Sul. A cerimônia de lançamento ocorreu na Aldeia Cachoeirinha, em Miranda, que é a maior aldeia do povo Terena e serve como marco para o reconhecimento desse saber tradicional como Patrimônio Cultural do Brasil.
Este projeto, contemplado em 2023 no contexto dos editais do Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, foi retomado pelo Iphan após um longo período de inatividade. No total, dois projetos foram aprovados no estado, incluindo o INRC da Cerâmica Terena. A execução será feita pelo Centro de Trabalho Indigenista (CTI), que já realiza atividades com ceramistas Terena há anos, fortalecendo a valorização cultural e os laços comunitários.
Importância do INRC para a Cultura Indígena
O INRC é uma ferramenta técnica crucial para identificar e documentar referências culturais, adotada pelo Iphan como parte da política de salvaguarda do patrimônio imaterial. Recentemente, o instituto atualizou seu método, com foco em mapear práticas, saberes e modos de vida que as comunidades reconhecem como essenciais para sua identidade.
João Henrique dos Santos, superintendente do Iphan em Mato Grosso do Sul, destacou que esta iniciativa é uma resposta a uma lacuna histórica no reconhecimento das referências culturais indígenas na região. “Mato Grosso do Sul abriga a terceira maior população indígena do Brasil, e, de maneira surpreendente, o Iphan ainda não havia reconhecido patrimônio cultural de origem indígena aqui. Nossa gestão se compromete a reconhecer essas referências e o patrimônio cultural indígena do estado”, comentou.
Ele enfatizou que a atual administração está focada em três eixos principais: educação patrimonial, reconhecimento de comunidades quilombolas conforme a Portaria Iphan nº 135 e a valorização do patrimônio cultural indígena. Além do INRC da Cerâmica Terena, também está em andamento um inventário relacionado aos povos Guarani e Kaiowá.
Estatuto da Cerâmica Terena e Expectativas Futuras
A cerâmica Terena já é reconhecida em nível estadual pela Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul. O inventário do Iphan busca reunir subsídios técnicos para a possível abertura de um processo de registro em nível nacional. “Esperamos que, ao final do INRC, tenhamos informações sólidas para avançar com o registro como Patrimônio Cultural do Brasil, reconhecendo esse saber que é passado de geração em geração entre as mulheres indígenas Terena”, ressaltou João Henrique.
Embora a Aldeia Cachoeirinha seja o ponto de partida da pesquisa, por sua relevância histórica e atual envolvimento do CTI, o inventário terá uma abordagem mais ampla. Há ceramistas atuando em outras aldeias da região, como Taunay e Buriti, além de contextos urbanos em Campo Grande, incluindo o Memorial da Cultura Indígena.
João Henrique também lembrou que a presença dos Terena é significativa nos centros urbanos, como Campo Grande, Miranda e Aquidauana. A Aldeia Marçal de Souza, em Campo Grande, é reconhecida como a primeira aldeia urbana do Brasil e pertence à comunidade Terena.
A Tradição da Cerâmica Terena
A cerâmica Terena, produzida majoritariamente por mulheres, é conhecida por seu barro avermelhado e pela aplicação de pinturas brancas com motivos geométricos e florais delicados, características que se tornaram ícones dessa tradição. A técnica de acodelamento, que envolve moldar a argila em rolinhos manualmente, é complementada com polimento feito com pedras, uso de resina de jatobá e queima artesanal. As peças incluem moringas, panelas e esculturas de animais que refletem a identidade cultural, a flora e a fauna locais.
“A cerâmica Terena está presente nas cozinhas sul-mato-grossenses, enfeitando não apenas lares, mas também repartições públicas. A tonalidade avermelhada e os traços florais são marcas muito expressivas desse artesanato”, destacou o superintendente. Para ele, acompanhar esse processo tem sido uma experiência institucional enriquecedora. “Para o Iphan em Mato Grosso do Sul, é um privilégio e uma honra trabalhar com essas mulheres indígenas e observar de perto esse saber tradicional.”
