Mobilização no Coração da Amazônia
Na última quinta-feira (19), a resistência indígena ganhou novos contornos no rio Tapajós, no Pará, com cerca de 400 manifestantes, organizados em quatro embarcações, bloqueando uma balsa que transportava soja em um trecho do rio, nas proximidades do terminal da multinacional Cargill. Essa ação é parte de uma luta maior contra o Decreto 12.600/2025, que insere as hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). Desde o dia 22 de janeiro, a área do terminal da Cargill já estava ocupada pelos indígenas.
Os participantes do protesto argumentam que o decreto ameaça não apenas o modo de vida tradicional das comunidades, mas também a saúde dos rios, essenciais para o equilíbrio ecológico e cultural na região. “Este rio é nossa rua, nossa fonte de alimento e lar dos nossos peixes”, destaca Auricélia Arapiuns, uma das lideranças do Baixo Tapajós. “Como transformar essa riqueza em corredor para soja?”, questiona.
Consequências e Polêmicas da Dragagem
Além das manifestações no leito do rio, os indígenas mantêm um bloqueio terrestre ao terminal da Cargill que já dura quase um mês. Alessandra Munduruku, outra liderança da mobilização, critica a lentidão nas negociações com o governo: “Estamos nessa luta para defender nosso futuro, mas até agora o que houve foi apenas enrolação.” A Cargill, uma das maiores empresas de alimentos do mundo, não respondeu ao pedido de posicionamento até a publicação desta matéria.
Em dezembro, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) havia publicado um edital para a dragagem do rio Tapajós, com um custo estimado de R$ 74,8 milhões, planejada para abranger cerca de 250 quilômetros. Após os protestos, o governo decidiu suspender a licitação, mas a insatisfação persiste, uma vez que o decreto controverso ainda está em vigor. A empresa DTA Engenharia, responsável pelo processo, já acumulava autos de infração ambiental, resultando em multas significativas.
Impactos Ambientais e Sociais
Maria Leusa Munduruku, outra voz forte entre os indígenas, enfatiza a importância de respeitar os ciclos naturais do rio. “Quando se aprofunda e alarga a navegação, rompem-se os ciclos de cheia e vazante. Isso não afeta apenas o Tapajós, mas toda a região”, afirma. A luta em defesa dos rios se intensifica, especialmente quando os planos do governo federal incluem aumentos consideráveis na capacidade de transporte aquaviário, passando de 14,6 milhões de toneladas para 66 milhões até 2035.
Paralelamente, o governo também propõe a construção da Ferrogrão, uma ferrovia que ligaria o norte do Mato Grosso ao porto de Miritituba, em Itaituba, ampliando ainda mais a pressão sobre os territórios indígenas e a natureza. “Não estamos lutando apenas pelo Tapajós, mas contra a privatização de todos os rios da Amazônia”, aponta Takakpe Mektutire, do Instituto Raoni.
Tensão e Conflitos Recentes
A tensão aumentou em Santarém após um incidente envolvendo o vereador Malaquias Mottin, que supostamente avançou com seu carro contra os manifestantes. Esse episódio gerou uma onda de indignação e resultou em um pedido de impeachment contra o vereador. Desde então, a mobilização indígena tem atraído novos reforços de diversas comunidades, somando cerca de 1.200 participantes, como os povos Kayapó e Panará.
A união desses grupos de diferentes regiões ressalta a importância de uma luta coletiva e solidária entre os povos indígenas, que sentem na pele os efeitos de políticas que priorizam a exploração econômica em detrimento da preservação de seus territórios. A expectativa é que essa mobilização continue a chamar a atenção para a necessidade de diálogo e respeito às tradições e direitos dos povos indígenas.
