A Primeira Licenciatura Indígena no Amazonas
Em meio a rios e saberes ancestrais, a educação indígena no Amazonas acaba de conquistar um marco significativo. Na última segunda-feira (23/2), ocorreu a aula inaugural do curso de Licenciatura em Pedagogia Indígena em Belém do Solimões, pertencente ao município de Tabatinga. Este evento marcou a criação do primeiro polo rural indígena da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), um passo importante na formação acadêmica de povos originários na região.
As aulas acontecem em colaboração com a Prefeitura de Tabatinga, na Escola Indígena Eware Mowatcha, situada em solo Tikuna. A iniciativa já conta com a participação de 31 acadêmicos dos povos Tikuna e Kokama, que iniciam sua jornada no ensino superior em um espaço que simboliza resistência, identidade e a valorização de sua cultura.
Uma Educação Baseada na Cultura Local
A implementação do polo rural indígena da UEA vai além de simplesmente oferecer um curso; ela afirma o direito dos povos indígenas a uma formação superior que reflita suas realidades, línguas e modos de vida. O curso de Licenciatura em Pedagogia Indígena foi cuidadosamente estruturado para formar professores comprometidos com a educação básica escolar indígena, integrando saberes tradicionais e conhecimentos acadêmicos em uma abordagem intercultural, bilíngue e comunitária.
A vice-reitora da UEA, Prof.ª Dra. Katia Couceiro, que esteve presente na aula inaugural, destacou que essa iniciativa está alinhada com as políticas de interiorização e inclusão da universidade, ampliando o acesso ao ensino superior em regiões remotas e fortalecendo a autonomia educacional dos povos originários. Ela enfatizou que, ao se estabelecer nos territórios indígenas, a UEA reafirma a educação como um instrumento vital para a transformação social, preservação cultural e construção de um futuro promissor para as comunidades do Alto Solimões.
“Esse trabalho está sendo realizado com muito cuidado e atenção, seguindo uma metodologia qualificada, que sempre foi característica da nossa universidade. Estamos vivendo um momento histórico. Reconhecemos que os próximos quatro anos trarão desafios, mas também muitas oportunidades de aprendizado e crescimento. Vocês se tornarão agentes multiplicadores da educação neste novo polo da UEA, levando conhecimento e transformação para suas comunidades. Meus parabéns a todos!”, declarou a vice-reitora, emocionada.
A Importância da Parceria com a Comunidade
O prefeito de Tabatinga, Plínio Cruz, também abordou a relevância da parceria com a UEA. “Hoje, a universidade se torna parte integrante da vida da nossa comunidade indígena, e isso nos traz grande alegria. Destaco a sensibilidade da UEA em realizar um vestibular específico na própria comunidade, garantindo o acesso e o respeito às realidades locais. Agradeço ao reitor, professor André Zogahib, à vice-reitora, professora Katia Couceiro, e a toda a equipe da UEA por abraçarem esse compromisso e levarem educação para onde ela é mais necessária”, afirmou.
Novas Perspectivas para a Educação Indígena
Bruno Fernandes, acadêmico do povo Tikuna, compartilhou sua visão sobre essa conquista histórica. “Fazer parte do primeiro curso em Belém do Solimões é uma enorme satisfação. A presença da UEA na nossa comunidade representa um avanço significativo, não apenas para os alunos matriculados, mas para todos que vivem aqui. Esse polo trará muitos saberes para a região e fortalecerá ainda mais a educação indígena. A dificuldade de acesso anteriormente enfrentada, tanto na cidade quanto em comunidades, agora é superada. Estamos extremamente gratos por essa valorização e por esta oportunidade de formação”, destacou o estudante.
O diretor do Centro de Estudos Superiores de Tabatinga (Cestb), Prof. Dr. Edilson de Carvalho, também comentou sobre a importância da iniciativa. “Essa era uma demanda antiga da comunidade de Belém do Solimões, construída com diálogo e insistência. Para o Cestb, é uma honra coordenar esse curso. Temos experiência e uma equipe capacitada, composta por especialistas que trabalham com questões indígenas. A confiança depositada pela universidade nos alegra e nos motiva a garantir uma formação de qualidade para os acadêmicos”, enfatizou.
Entre os presentes estavam o pró-reitor de Ensino de Graduação da UEA, Prof. Dr. Raimundo Barradas; o coordenador do curso, Prof. Dr. Pedro Rapozo; o líder da comunidade, cacique João Inácio; o vereador Luizão; e o secretário municipal de Educação, Waldeclace Batista.
