Um Crime Impune e Sua Repercussão
No dia 21 de janeiro de 2024, a memória ainda está viva e ativa entre os Pataxó. Um ataque brutal perpetrado por milicianos armados contra uma retomada indígena na Bahia completou dois anos, e os ecos desse massacre continuam a ressoar. Durante a invasão, a Polícia Militar, mesmo presente, foi incapaz de proteger os indígenas, que foram atacados com facões e disparos de armas. O cacique Nailton Pataxó foi um dos atingidos, mas o trágico desfecho envolveu também sua irmã, a pajé Nega Pataxó, que teve sua vida tirada de forma covarde.
Nega, mesmo ferida, resistiu e manteve seu maracá em riste. Nailton, ferido, fingiu estar morto enquanto ouvia as ameaças dos agressores. Esses momentos finais de vida de Nega Pataxó revelam a brutalidade e o desprezo pela vida indígena. O assassinato da líder espiritual e política dos povos Pataxó Hã Hã Hãe e Tupinambá permanece sem julgamento, sem responsabilização dos envolvidos e sem punição aos oficiais que deveriam ter garantido a segurança durante o ataque.
O Luto que se Transforma em Luta
Para marcar a data e romper o silêncio que cerca o caso, familiares e mulheres indígenas se unem para lançar a série de podcast “Nega Pataxó: Nosso Luto é Luta”. Com episódios que reconstroem o assassinato e discutem os conflitos fundiários no sul da Bahia, a série também traz à tona a voz de Nega, através de entrevistas e cantos xamânicos que ecoam sua luta e resistência. O projeto foi desenvolvido com o apoio do Fundo Semear e do Pulitzer Center.
O assassinato de Nega ocorreu em um contexto de intensificação das disputas por terras, onde grupos de fazendeiros atuam como verdadeiras milícias. Os ataques se tornaram mais frequentes, e a impunidade prevalece. O atirador responsável pelo disparo fatal, um jovem ligado a um fazendeiro, foi preso, mas rapidamente liberado após pagar fiança, refletindo a fragilidade do sistema de justiça.
A Luta das Mulheres Indígenas
Após dois anos do assassinato, a resposta à impunidade tem vindo fortemente das mulheres indígenas. O luto se transforma em mobilização, e a Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas (APAMUI) surge como um importante espaço de articulação política, onde as mulheres se organizam para denunciar a violência e cuidar coletivamente de suas comunidades. As Tendas de Cuidado Pajé Nega Pataxó são um exemplo dessa articulação, realizadas em eventos importantes de mobilização indígena, como o Acampamento Terra Livre.
No terceiro episódio da série de podcast, que foi lançado neste dia 21 de janeiro, Nega Pataxó se apresenta em sua essência, compartilhando seus cantos e sua prática espiritual. Nela, ressoa uma forte ética de cuidado, onde afirma que defenderá qualquer mulher em situação de vulnerabilidade. “Se eu puder defender qualquer mulher, eu defendo. Com um pedaço de pau, com uma lança, com o que eu tiver na mão”, declarou em uma entrevista.
Memória e Justiça: A Luta Continua
Neste contexto, o podcast não só reconta a história de Nega, mas também evidencia a continuidade de um sistema de violência que persegue os povos indígenas. Com a articulação entre interesses do agronegócio e grupos armados, as comunidades enfrentam um cenário de ameaças constantes, enquanto a resposta do Estado permanece lenta e ineficaz. A memória de Nega Pataxó se transforma em símbolo de resistência e luta por justiça.
Embora as autoridades tenham sido chamadas a agir após a repercussão do crime, a realidade é que o sul da Bahia ainda é palco de ataques constantes contra as comunidades indígenas. As mulheres da Terra Indígena Caramuru-Paraguaçu continuam a lutar, promovendo um cuidado coletivo que se traduz em ações políticas e de resistência contra a violência de gênero e os conflitos territoriais.
Para as famílias de Nega Pataxó e para os povos indígenas, recordar é um ato de resistência. O lançamento do podcast representa um esforço em manter viva a memória de Nega e garantir que sua história não se torne uma estatística. A luta por justiça continua e, como Nega disse em um de seus últimos cantos: “Eu sou tupinambá guerreira, eu trabalho é para combater, nossa batalha temos que vencer”.
