Desigualdades na Saúde das Mulheres Indígenas
Uma pesquisa recente apontou que as mulheres indígenas no Brasil morrem em média mais jovens que suas contrapartes brancas. O estudo, publicado na renomada revista científica The Lancet em agosto de 2025, revelou que a idade mediana de morte para mulheres indígenas entre 10 e 49 anos é de 31 anos, enquanto a de mulheres brancas é de 39 anos. Realizada por Guilherme Torres, mestrando no Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, e pela professora Flávia Bulegon Pilecco, a pesquisa visa trazer à tona a situação de um grupo populacional historicamente negligenciado no Brasil.
A investigação analisou as taxas de mortalidade de mulheres indígenas em idade reprodutiva entre 2010 e 2019, em comparação com as de mulheres brancas, e buscou dar visibilidade a um tema ainda pouco explorado: as diversas causas de morte além das relacionadas à maternidade. O estudo evidenciou as desigualdades que cercam essas mulheres, que morrem com uma frequência alarmante fora do ambiente hospitalar, levantando questões cruciais sobre o acesso equitativo a cuidados de saúde.
“Nosso objetivo foi, primeiramente, entender as desigualdades estruturais que afetam os povos indígenas e a escassez de informações sobre sua saúde. No que tange às mulheres indígenas, procuramos ir além da visão tradicional que se limita a questões reprodutivas, buscando compreender outras formas de adoecimento e mortalidade”, explica o pesquisador.
Resultados do Estudo e Desigualdades Estruturais
O estudo utilizou dados abrangentes do Sistema Único de Saúde para analisar quase 280 mil óbitos de mulheres indígenas e brancas ao longo de uma década, cobrindo diversas regiões do Brasil. A pesquisa constatou que a maior parte das mortes de mulheres indígenas ocorre nas regiões Norte e Centro-Oeste, que juntas correspondem a dois terços dos casos, seguidas do Nordeste, com cerca de 15%, e das regiões Sul e Sudeste, com 9% e 7%, respectivamente.
As causas de morte das mulheres indígenas refletem um cenário complexo, com taxas elevadas de doenças evitáveis, como doenças infecciosas, mortes maternas e causas externas. Simultaneamente, observa-se um aumento significativo nas doenças crônicas não transmissíveis, como problemas circulatórios, digestivos e neoplasias, além de doenças endócrino-metabólicas e nutricionais.
“Essas mulheres ainda enfrentam desafios típicos de comunidades com baixa cobertura de saúde básica, enquanto, por outro lado, lidam com um aumento de enfermidades associadas à urbanização e mudanças no estilo de vida. Isso demonstra uma desigualdade estrutural no acesso e na qualidade dos cuidados de saúde”, destaca Guilherme.
Causas Externas como Principal Fator de Mortalidade
Um dos achados mais alarmantes do estudo é que as causas externas, que incluem violência, suicídios e acidentes, são responsáveis por uma parcela significativa das mortes de mulheres indígenas em idade reprodutiva. O estudo revelou que essa população apresenta uma taxa de aproximadamente 37 óbitos por 100 mil mulheres, mais que o dobro da taxa de mulheres brancas. Embora este índice tenha se mantido estável, ele permanece alto, ao passo que entre as mulheres brancas já se observa uma tendência de queda.
“Esses dados evidenciam a vulnerabilidade das mulheres indígenas à violência, à exclusão social e à falta de acesso a serviços de proteção e saúde adequados”, comenta o pesquisador.
Além disso, a pesquisa apontou um aumento nas taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares, respiratórias e digestivas entre as mulheres indígenas, em contraste com a estabilidade ou redução dessas taxas entre mulheres brancas. Isso reforça a existência de uma dupla carga de doenças que afeta as mulheres indígenas, refletindo desigualdades sociais e raciais.
Impactos da Desigualdade Social no Acesso à Saúde
Os resultados do estudo indicam que as desigualdades sociais e estruturais têm um impacto direto na mortalidade das mulheres indígenas. Guilherme esclarece que a pesquisa comparativa entre mulheres indígenas e brancas evidencia os desafios enfrentados por essa população, que vive em contextos muitas vezes marcados pela precariedade no acesso à saúde, infraestrutura inadequada e barreiras culturais e linguísticas.
Mesmo aquelas que residem em áreas urbanas e periurbanas enfrentam dificuldades significativas para acessar serviços de saúde, resultando em altas taxas de mortalidade por causas evitáveis, como doenças infecciosas e complicações relacionadas à gestação. “Esses achados refletem a invisibilização histórica dos povos originários no Brasil, um país que ainda nega os direitos e as particularidades dessa população”, afirma o pesquisador.
Para Guilherme, a implementação de políticas públicas de saúde que sejam sensíveis às necessidades específicas das mulheres indígenas é fundamental para reduzir a mortalidade precoce e evitável. Tais políticas devem incluir o fortalecimento da infraestrutura de saúde, o combate à discriminação institucional e a promoção do empoderamento comunitário. A educação em saúde também desempenha um papel crucial na prevenção e na detecção precoce de problemas de saúde.
“A efetividade dessas ações estará atrelada à sua capacidade de integrar equidade, sensibilidade cultural e a participação das comunidades indígenas, formando uma abordagem que promova a justiça social na saúde”, conclui o pesquisador.
