Análise da Mortalidade das Mulheres Indígenas
Um novo estudo conduzido pela Faculdade de Medicina da UFMG expõe uma preocupante realidade sobre a mortalidade de mulheres indígenas no Brasil. Segundo a pesquisa, realizada pelo mestrando Guilherme Torres e pela professora Flávia Bulegon Pilecco, as mulheres indígenas com idades entre 10 e 49 anos apresentam uma expectativa de vida significativamente menor que a das mulheres brancas. A pesquisa, publicada na prestigiada revista científica The Lancet, aponta que a idade mediana de óbito para as mulheres indígenas é de apenas 31 anos, enquanto para as mulheres brancas, essa média é de 39 anos.
O estudo epidemiológico abrangeu o período de 2010 a 2019 e focou na comparação das taxas de mortalidade entre esses dois grupos durante a fase reprodutiva. Com o objetivo de dar mais visibilidade a uma população frequentemente esquecida, a pesquisa analisa não apenas as mortes relacionadas à maternidade, mas também uma gama de outras causas que impactam a vida dessas mulheres.
Desigualdades Estruturais e Acesso à Saúde
Os dados revelam desigualdades alarmantes, refletindo padrões de adoecimento distintos. Além da prematuridade nas mortes, as mulheres indígenas falecem com maior frequência fora de ambientes hospitalares, levantando questões sérias sobre a equidade no acesso a cuidados de saúde. “Nosso foco sempre foi compreender as desigualdades estruturais que afetam os povos indígenas e a falta de dados robustos sobre sua saúde. No caso das mulheres indígenas, queremos ir além do que chamamos de ‘materno-infantilismo’, uma visão que limita o cuidado a questões reprodutivas, ignorando outros tipos de adoecimento e morte”, destaca Guilherme.
O estudo pretendia também fornecer subsídios para que políticas públicas possam ser mais justas e eficazes, levando em consideração as particularidades culturais e sociais desse grupo, promovendo um cuidado em saúde que seja verdadeiramente inclusivo.
Dados da Pesquisa e Causas de Mortalidade
A pesquisa, que analisou dados do Sistema Único de Saúde (SUS), revisitou registros de quase 280 mil óbitos de mulheres indígenas e brancas nos últimos dez anos. As regiões Norte e Centro-Oeste concentram a maior parte das mortes entre mulheres indígenas, respondendo por dois terços dos casos, seguidas pelo Nordeste, Sul e Sudeste. Com um padrão de mortalidade que apresenta múltiplas causas, o estudo revela um duplo fardo de doenças. Enquanto persistem causas evitáveis como doenças infecciosas, as mulheres indígenas também enfrentam um aumento nas doenças crônicas não transmissíveis, incluindo problemas circulatórios, digestivos e respiratórios.
“Essas mulheres continuam a enfrentar desafios típicos de áreas com baixa cobertura de saúde, que já foram superados para muitos setores da sociedade brasileira. Simultaneamente, lidam com um aumento das doenças associadas à urbanização e mudanças de estilo de vida, o que evidencia uma situação de desigualdade estrutural em termos de saúde”, observa o pesquisador.
Violência e Causas Externas como Fatores Prevalentes
Outro dado alarmante da pesquisa aponta que as causas externas, que incluem violências, suicídios e acidentes, são as que mais impactam a mortalidade entre mulheres indígenas. Durante o período estudado, a taxa de mortalidade por causas externas foi de aproximadamente 37 óbitos por 100 mil mulheres indígenas, mais do que o dobro em comparação com as mulheres brancas. “Esse panorama reflete a vulnerabilidade das mulheres indígenas à violência e à exclusão social, além da ausência de acesso adequado a serviços de proteção e saúde”, explica Guilherme.
Ao mesmo tempo, a pesquisa revelou que as taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares, respiratórias e digestivas estão em ascensão entre as mulheres indígenas, enquanto para as mulheres brancas esses indicadores estão estabilizados ou em redução.
Impacto da Desigualdade Social no Acesso à Saúde
Guilherme esclarece que as desigualdades estruturais têm um impacto direto na mortalidade dessas mulheres. Muitas vivem em áreas de difícil acesso, o que limita seu acesso a serviços de saúde, e ainda enfrentam barreiras linguísticas e culturais que dificultam o atendimento. “Mesmo as que residem em zonas urbanas enfrentam dificuldades significativas para acessar serviços de saúde. Isso resulta em mortes evitáveis, como as causadas por doenças infecciosas e complicações durante a gestação”, acrescenta.
O estudo conclui que mudanças nas políticas públicas de saúde são cruciais para reduzir a mortalidade precoce entre mulheres indígenas, garantindo o acesso equitativo a serviços de saúde de qualidade, alinhados às necessidades específicas dessa população. Tais políticas precisam ser culturalmente sensíveis, respeitando as tradições locais e superando barreiras linguísticas. A formação de profissionais indígenas e o fortalecimento da infraestrutura de transporte e saúde são igualmente essenciais.
Por fim, o fortalecimento da educação em saúde e o empoderamento das comunidades se mostram fundamentais para promover a detecção precoce de problemas de saúde. “Estratégias baseadas em evidências são fundamentais. Políticas que busquem a equidade, sensibilidade cultural e a participação comunitária têm o potencial de reduzir as disparidades em saúde, promovendo justiça social”, conclui o pesquisador.
