Povos da Amazônia Mobilizados
No último mês, um acampamento com cerca de 600 pessoas de 14 diferentes povos indígenas da Amazônia está instalado em frente ao porto da Cargill, em Santarém. O objetivo dessa mobilização é pressionar o governo de Luiz Inácio Lula da Silva a revogar o Decreto 12.600, que autoriza a dragagem do rio Tapajós, transformando suas águas em uma hidrovia privatizada para o transporte de soja e outros grãos. Essa medida é vista como uma ameaça direta à vida e ao meio ambiente.
Recentemente, o governo brasileiro recuou em relação à dragagem, mas ainda mantém a privatização dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no âmbito do Programa Nacional de Desestatização. Isso implica que a gestão e a manutenção destas hidrovias, que somam 280 km apenas no Tapajós, seriam transferidas para grandes empresas multinacionais ligadas ao agronegócio, sem qualquer consulta aos povos que vivem da e com o rio.
Desmatamento e Poluição: Uma Realidade Alarmante
A realidade enfrentada por essas comunidades é alarmante. As monoculturas de soja e milho estão devastando a floresta amazônica, poluindo as águas e o ambiente com o uso excessivo de agrotóxicos. O rio Tapajós, um dos principais afluentes da Amazônia, já está sobrecarregado. Trens com até 35 barcaças transportam grãos destinados à China e à Europa, e 41 portos foram construídos ou estão em projeto ao longo do rio, onde circulam mais de 15 milhões de toneladas anualmente.
A poluição causada pelo mercúrio, oriunda da mineração legal e ilegal, e a remoção do leito do rio são os principais desafios enfrentados pelos povos indígenas. Rafael Zilio, especialista em questões ambientais, observa que ao tratar um rio como uma meramente “hidrovia”, o Estado e as corporações do setor de mineração e agronegócio perpetuam a devastação da Amazônia.
Unidos na Luta pela Autonomia
Nos últimos dias, a estrada que leva ao aeroporto de Santarém foi bloqueada em protesto. Silvia Adoue, uma das líderes indígenas, ressalta que os munduruku não esperaram pela demarcação de seu território pelo Estado; eles optaram pela autodemarcação em aliança com comunidades de pescadores, demonstrando sua capacidade de articulação mesmo diante de visões de mundo distintas.
Essa luta é parte de uma resistência mais ampla, que já dura anos, e suas lições são muitas. Primeiramente, ocorre sob um governo que se diz progressista, com Guilherme Boulos como secretário da Presidência e Sonia Guajajara à frente do Ministério dos Povos Indígenas. No entanto, a expectativa de que esses representantes possam agir de forma contrária aos interesses do grande capital pode ser uma ilusão.
Privatização e Capitalismo: Uma Ameaça à Natureza
O que se observa é que o capitalismo avança na privatização da natureza para acumular mais capital, transformando os grandes rios amazônicos em hidrovias cheias de infraestrutura. Essa transformação não apenas ameaça o meio ambiente, mas também coloca em risco a sobrevivência dos povos que habitam suas margens.
Enquanto a Cargill lucra anualmente 154 bilhões de dólares e recebe apoio governamental, os povos indígenas, como os munduruku, que representam apenas 13 mil pessoas, lutam sozinhos, contando apenas com o apoio de comunidades semelhantes. A luta é desigual, mas a determinação desses povos é forte e inabalável.
A Importância da Resistência Indígena
O relatório da Sumaúma destaca que esses povos estão na linha de frente da resistência ao agrocapitalismo global. Apesar de serem poucos, eles estão decididos a defender suas terras e sua dignidade. Uma mulher munduruku expressou claramente: “Os brancos veem o rio como uma mercadoria; para nós, é vida”. Essa mensagem ressoa não apenas no Brasil, mas ecoa em diversas partes do mundo, como Wallmapu e Mesoamérica.
A resistência enfrentada por esses povos deve servir de inspiração para todos. Afinal, se tanto a direita quanto a esquerda falham em proteger o planeta da catástrofe iminente, é a vez dos povos que, com coragem e determinação, colocam seus corpos e sangue em defesa da vida e da natureza.
