Desdobramentos de uma Tragédia
Antes de seu trágico assassinato, a pajé Nega Pataxó transmitiu aos seus familiares um canto poderoso que, hoje, ecoa como uma premonição. Com uma voz marcante e afinada, Nega cantou em rituais e eventos, proclamando:
“Eu sou tupinambá guerreira,
mas eu trabalho é para combater,
eu entrego o meu peito à lança,
nossa batalha temos que vencer.”
Em janeiro de 2024, Nega foi covardemente assassinada em um ataque perpetrado por fazendeiros do grupo autointitulado Movimento Invasão Zero, durante uma tentativa de retomada da Fazenda Inhuma, localizada no município de Potiraguá, sul da Bahia. O ataque também feriu seu irmão, o cacique Nailton Pataxó, que sobreviveu ao ataque. A cena de seu corpo, caído no pasto com um maracá em mãos, é emblemática de sua luta.
Há mais de quatro décadas, Nega liderava a luta pela demarcação das terras Pataxó Hã Hã Hãe na Terra Indígena Caramuru-Paraguassu. Sua morte não apenas choca, mas também representa a continuidade de uma violência histórica que atinge as comunidades indígenas no Brasil.
A Impunidade e a Repercussão do Crime
O autor do disparo que matou Nega, filho de um fazendeiro, foi preso em flagrante, mas liberado após pagar fiança. Exames balísticos confirmaram que o disparo que resultou em sua morte partiu da arma do acusado. Até o presente momento, o crime não foi julgado, e as autoridades não responsabilizaram o grupo responsável pelo ataque. A tragédia provocou uma onda de indignação e atraiu a atenção de diversas lideranças indígenas e autoridades políticas, como a ministra Sonia Guajajara, que compareceu ao funeral.
A ministra, acompanhada de representantes do Ministério da Justiça e Segurança Pública, fez questão de observar que, apesar da crescente violência, não houve novos assassinatos em terras indígenas desde o ocorrido – um sinal de esperança em meio ao clima de impunidade que ainda reina no sul da Bahia. Entretanto, o cenário de violência persiste, com milícias rurais como a Invasão Zero continuando a atuar com total impunidade.
Desafios e Resistências
Desde a morte de Nega, sua família e a comunidade Pataxó têm se mobilizado para transformar a dor em luta. O movimento, impulsionado pela Associação Paraguaçu de Mulheres Indígenas, busca garantir que o assassinato não seja apenas mais uma estatística de impunidade. As mulheres da comunidade têm se organizado para reivindicar justiça e manter viva a memória de Nega, realizando diversas atividades que incluem Tendas de Cuidado e mobilizações públicas.
A primeira Tenda de Cuidado foi organizada menor de três meses após sua morte, durante o Acampamento Terra Livre em Brasília. Esta iniciativa, encabeçada por mulheres da família de Nega, visa não apenas honrar sua memória, mas também criar um espaço de escuta e acolhimento para outras mulheres que enfrentam situações semelhantes de violência e opressão.
Memória e Luta por Justiça
O legado de Nega Pataxó é representado pela transformação da dor em ação coletiva. Seu assassinato não é apenas um caso isolado, mas reflete um contexto mais amplo de violência contra defensores da terra e do meio ambiente. Um relatório da Justiça Global e da Terra de Direitos apontou que, entre 2023 e 2024, ocorreram 486 casos de violência contra defensores dos direitos humanos no Brasil.
As mulheres da comunidade Pataxó são protagonistas na luta por justiça, utilizando sua força e união para enfrentar as adversidades. Luzinete Pataxó, irmã de Nega, e outras líderes destacam a importância de manter a organização política e a visibilidade das questões que envolvem as comunidades indígenas.
As Tendas de Cuidado, erguidas em memória de Nega, simbolizam a continuidade de sua luta e a resistência feminista indígena. As mulheres indígenas estão se rearticulando, não apenas para recordar Nega, mas também para exigir mudanças nas políticas públicas e garantir seus direitos.
Um Chamado à Ação
A luta pela terra e pelos direitos territoriais é um tema central na trajetória de Nega Pataxó e continua a inspirar a comunidade Pataxó Hã Hã Hãe. O esforço coletivo para exigir justiça e combater a impunidade é um reflexo da força e resiliência do povo indígena. A mensagem deixada por Nega é uma convocação à luta, um lembrete de que a resistência deve continuar.
Com a forte mobilização das mulheres e a solidariedade de aliados em todo o Brasil, a memória de Nega Pataxó persiste como um símbolo de resistência e coragem. Sua luta e legado vivem na continuidade das ações em defesa dos territórios indígenas e na busca por justiça.
