Uma Análise Crítica da Juventude e da Presidência no Brasil
Em um domingo de outubro de 1989, tive a oportunidade de ser entrevistado no famoso programa de televisão “Cara a Cara”, apresentado por Marília Gabriela, uma das melhores profissionais da época. Naquele momento, o Brasil estava prestes a passar por uma transformação significativa: as eleições presidenciais estavam se aproximando, marcando o retorno de um processo democrático após anos de generalatos e escolhas limitadas por um Congresso que, mesmo eleito, muitas vezes se mostrava permissivo.
O escolhido da vez foi Fernando Collor de Melo, autodenominado “caçador de marajás”, que derrotou Luís Inácio Lula da Silva de maneira bastante contundente. Após a vitória, Collor decidiu relaxar em um destino exótico, as Ilhas Seicheles, ainda desconhecido para a maioria da população brasileira da época. Essa decisão foi uma primeira demonstração de sua falta de responsabilidade, considerando o peso que o cargo de presidente lhe conferia. O que seria um merecido descanso para muitos, para ele refletia uma falta de consciência sobre a gravidade da posição que estava prestes a assumir.
Durante minha conversa com Marília, comentei sobre minha preocupação com a sua juventude e a falta de experiência necessária para liderar o país. Fiz uma previsão ousada: disse que Collor poderia não completar seu mandato, algo que a entrevistadora achou absurdo e não contestou. Para espanto de muitos, essa previsão se concretizou em apenas dois anos. Após sua saída, fui questionado sobre o porquê de meu acerto, com alguns até sugerindo que eu teria feito um pacto com forças ocultas.
Essa situação nos faz refletir sobre a dinâmica entre a juventude e a política. A história, nos mostra que a relação entre líderes e o público é complexa, e os jovens, muitas vezes, tendem a se deixar levar pela vaidade e pela aprovação imediata, esquecendo-se de que um presidente deve governar para todos, e não apenas para aqueles que o apoiaram. A presidência, independentemente da idade do líder, exige prudência, tolerância e, sobretudo, cuidado nas palavras e ações.
Ao olharmos para a história, percebemos que desde os primórdios da civilização, a governança sempre foi um desafio. O ser humano, que existe há aproximadamente 100.000 anos, ainda luta para encontrar o equilíbrio entre o jovem idealismo e a sabedoria dos mais velhos. Nas sociedades organizadas, a figura dos anciãos sempre teve um papel fundamental, guiando e aconselhando os mais jovens. Essa sabedoria acumulada é independente de regime ou ideologia, e é vital para o funcionamento harmônico de qualquer nação.
Voltando ao caso de Collor, sua atitude em relação ao poder e à imagem de um presidente revela como a vaidade pode se transformar em um obstáculo. Lembro-me de sua posse em março de 1990, quando, vestido com a farda de general, buscava reafirmar sua autoridade, mas logo se viu em meio a uma crise que levou a sua saída. Essa relação do jovem com o poder pode gerar desastres. A governança exige um cuidado que Collor, em sua juventude, parecia não entender.
Um aspecto que não deve ser esquecido é que a política é um campo onde emoção e razão devem caminhar juntas. Um líder que se deixa levar por impulsos ou rivalidades, principalmente em um país com um histórico de divisão e conflitos, corre o risco de não apenas se prejudicar, mas de afetar toda uma nação. Um presidente deve ser capaz de dialogar com todos os lados, mesmo aqueles que não compartilham de sua visão, e isso é algo que, por vezes, os mais jovens ainda não compreendem completamente.
Hoje, temos um novo presidente que, apesar de não ser mais tão jovem, revela-se como alguém que, em várias situações, esquece da prudência necessária ao cargo. Essa falta de cautela pode produzir riscos que não apenas desgastam a imagem do mandatário, mas também comprometem a estabilidade do país.
Em nosso Brasil, onde a cultura é marcada por eventos como o Carnaval, é importante lembrar que a política não deve se entrelaçar com as festividades de maneira desrespeitosa. O Carnaval é uma expressão do povo, e não um palanque para interesses pessoais ou políticos. Ao final, a política deve se manter à parte dessas celebrações, que são uma homenagem à cultura e ao espírito nacional, livres de antagonismos.
Portanto, é fundamental que os líderes compreendam que sua imagem e suas ações não refletem apenas suas ambições pessoais, mas também a identidade e os valores de uma nação. O desejo de popularidade não deve ser confundido com a responsabilidade de governar. Que aprendamos com a história, para que não cometamos os mesmos erros do passado, e que as experiências vividas sirvam de guia para um futuro mais sensato e respeitoso.
