Reunião Crucial em Busca de Resistência
Rio Branco, Acre – Em meio a um contexto de crescentes ameaças às terras e modos de vida tradicionais, povos indígenas do Acre e do sul do Amazonas, em colaboração com o Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), uniram forças em Rio Branco para participar da oficina intitulada “Amacro, Georreferenciamento e Troca de Sementes”. Organizado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) Regional Amazônia Ocidental, o encontro, que ocorreu entre os dias 28 e 31 de janeiro de 2026, serviu como um espaço vital para aprofundar o debate sobre os perigos que a Amacro representa e fortalecer as estratégias de resistência e autonomia entre os participantes.
Representantes de diversas etnias, incluindo Jaminawa, Nukini, Nawa, Shanenawa, Jamamadi, Apurinã, Kulina, Ashaninka, Sharanawa e Manchineri, compartilharam suas experiências e preocupações em relação ao avanço de projetos que buscam mercantilizar a natureza e desterrar os povos originários de suas terras.
Amacro: Uma Nova Fronteira de Conflitos e Destruição
A oficina teve como tema central a Amacro, acrônimo que engloba os estados do Amazonas, Acre e Rondônia, um projeto que, disfarçado de desenvolvimento, promove a expansão da fronteira agrícola e a exploração dos recursos naturais na Amazônia. Durante a palestra de Silvio Simeone, foram detalhados os objetivos da Amacro, alertando sobre os riscos que ela representa para os territórios indígenas e os bens naturais.
As discussões abordaram as pressões sobre o uso da terra, as ameaças à autonomia das comunidades e os impactos diretos na produção e segurança alimentar. “A Amacro não é desenvolvimento para nós; é um aprofundamento da destruição”, enfatizou uma liderança da etnia Nukini, refletindo o sentimento predominante de que tais projetos são impostos sem consultas adequadas, violando os direitos assegurados pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Num gesto marcante de união e resistência, os representantes indígenas e o MMC lançaram um manifesto coletivo durante a oficina, denunciando os impactos nocivos do projeto Amacro. O documento detalha questões como o desmatamento acelerado, queimadas, invasões de terras, retirada ilegal de madeira e a falta de demarcação das terras indígenas, exigindo ações concretas do governo.
Desafios da Mercantilização da Natureza
A oficina também abordou temas como sequestro de carbono, mudanças climáticas e os projetos REDD (Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal). O professor Michael Franz Schmidlehner, do Instituto Federal do Acre (IFAC), desmistificou conceitos que cercam a economia verde e demonstrou como iniciativas como o REDD frequentemente se tornam armadilhas para os povos indígenas.
Os participantes concordaram que tais projetos, longe de oferecer benefícios de longo prazo, geram divisões internas, limitam o uso tradicional da terra e ameaçam a soberania territorial. “Exigimos que as sociedades industrializadas, responsáveis pela crise climática, reduzam suas emissões drasticamente, ao invés de compensarem com créditos enganosos”, salientou um dos participantes, reafirmando a posição do Cimi de que créditos de carbono são apenas permissões para poluir.
Valorização da Biodiversidade e Resistência Ancestral
O terceiro dia da oficina foi dedicado à prática da troca de sementes, uma ação ancestral que reafirma a resistência e a valorização da biodiversidade. Os participantes trouxeram sementes de seus territórios, compartilhando suas origens e usos, além de relatar a dificuldade crescente em encontrar frutas que eram outrora abundantes, como biribá e cacau do mato, enfatizando a relação entre a redução da biodiversidade e as pressões enfrentadas em suas terras.
Outro ponto importante discutido foi a necessidade de fortalecer a organização comunitária e o papel da juventude na gestão dos recursos. A falta de incentivos para a produção sustentável e apoio técnico para enfrentar pragas e mudanças climáticas foram identificados como desafios significativos. As discussões também abordaram o acesso a políticas públicas, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), e os obstáculos para sua implementação.
A participação ativa da juventude foi considerada fundamental para a continuidade da luta. A capacitação em georreferenciamento ofereceu aos jovens conhecimentos tecnológicos para monitorar seus territórios e demarcar áreas ainda não reconhecidas. A importância de garantir informação e oportunidades foi destacada, buscando criar espaços que respeitem as realidades e interesses dos jovens, assegurando que a mobilização indígena permaneça unida frente aos desafios do desenvolvimento predatório.
Um Compromisso Coletivo com a Vida e a Terra
O encerramento da oficina foi marcado por uma cerimônia de bênção das sementes, simbolizando o compromisso coletivo com a defesa da vida e dos territórios. A distribuição dessas sementes representou esperança e continuidade da resistência dos povos indígenas diante das adversidades. A oficina “Amacro, Georreferenciamento e Troca de Sementes” reafirmou que a defesa dos territórios e a proteção dos modos tradicionais de produção são essenciais. Os povos indígenas permanecem firmes na denúncia de projetos que ameaçam a Amazônia e na construção de alternativas que assegurem o bem viver e a soberania de suas comunidades.
