Intervenções e Resultados na Saúde dos Yanomamis
Um novo estudo coordenado pela Fiocruz, publicado na revista Malaria Journal, destaca o impacto das ações do Governo Federal para combater a malária na Terra Indígena Yanomami. A pesquisa analisa a eficácia das medidas implementadas após a declaração de emergência de saúde pública em janeiro de 2023, que ocorreu em resposta a mais de 20 mil casos de malária na região, inserida em um contexto de crise humanitária, que também inclui altos índices de desnutrição e mortalidade infantil, além da expansão do garimpo ilegal.
O estudo mostra que, nos dois primeiros anos de intervenção emergencial, houve não apenas um aumento na detecção de casos, mas também uma redução nas hospitalizações e uma estabilização no número de mortes por malária em Roraima, onde parte da Terra Yanomami é localizada, assim como territórios de outras sete etnias indígenas.
A reativação de polos-base de saúde indígena e o aumento do número de profissionais em campo, juntamente com a oferta de testes diagnósticos, resultaram em um crescimento de 24,5% na detecção de casos, que saltaram de 52 mil em 2021 e 2022 para 65 mil em 2023 e 2024. Durante o mesmo período, as hospitalizações diminuíram cerca de 19%, passando de 787 para 638, enquanto o número de óbitos ficou estável, caindo de 57 para 54.
A pesquisa envolveu especialistas do Laboratório de Pesquisa em Malária do IOC/Fiocruz, da Secretaria Estadual de Saúde de Roraima (Sesau/RR), da Secretaria Municipal de Saúde de Boa Vista (SMSA Boa Vista), da Universidade Federal Rural de Roraima (UFRR), do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI Yanomami) e da Coordenação de Eliminação da Malária do Ministério da Saúde.
A coordenadora do estudo, Maria de Fátima Ferreira da Cruz, enfatiza a gravidade da crise enfrentada pelos yanomamis e a importância das ações governamentais. “As principais medidas incluíram a retirada dos garimpeiros da terra indígena e o retorno dos serviços de saúde, que estavam fechados devido à violência relacionada ao narcotráfico. Essas ações mostraram resultados positivos, mas precisam ser mantidas”, ressalta.
Desafios Persistentes e Necessidade de Vigilância
A situação de saúde dos yanomamis se complicou ainda mais no início de 2023, quando mais de 5 mil indígenas ficaram sem acesso a serviços de saúde devido ao fechamento de polos-base do DSEI Yanomami em sete aldeias. A reabertura dessas unidades foi concluída apenas em abril de 2024.
Jacqueline de Aguiar Barros, primeira autora do artigo e especialista em saúde indígena, destaca que, sem assistência adequada, os indígenas enfrentaram casos graves de malária, levando a um aumento significativo na mortalidade. “O cenário era desesperador, e mesmo com um trabalho intenso, a transmissão da malária ainda era um desafio, mas já observamos uma queda nos casos graves”, afirma.
Ela também menciona que dados preliminares de 2025 indicam uma tendência de queda no número de mortes, embora esses dados não tenham sido analisados na pesquisa publicada, já que os registros ainda não estavam consolidados.
Apesar dos avanços, o estudo aponta para desafios persistentes na região, como, por exemplo, a situação em Alto Alegre, município que faz fronteira com a Venezuela, onde a malária continua a crescer. Essa dinâmica é ainda mais complicada pela crise humanitária na Venezuela, o que faz com que muitos yanomamis transitem entre os países, frequentemente buscando atendimento em polos-base brasileiros após adoecerem.
Fátima alerta que a vigilância precisa ser integrada na fronteira, pois a presença do garimpo do lado venezuelano favorece a continuidade da transmissão da malária. A pesquisa identificou também 54 casos da espécie Plasmodium malariae, raramente diagnosticada no país, o que levanta preocupações sobre a introdução de novas cepas do parasita na região.
Além disso, a pesquisa revelou que a retirada dos garimpeiros teve um impacto significativo na redução da exportação de casos de malária de Roraima para outros estados, como Maranhão, Pará e Amazonas, com reduções drásticas nos casos.
As autoras do estudo concluem que a mobilidade dos garimpeiros desempenha um papel crucial na disseminação da malária e reiteram a necessidade de uma ação coordenada entre saúde e segurança para controlar a doença na Terra Yanomami. “As intervenções devem ser mantidas e ampliadas para garantir que a saúde dos yanomamis não seja comprometida novamente”, afirma Fátima.
