Desafios em Meio à Calamidade: A Realidade de Matias Barbosa
As fortes chuvas que atingem a Zona da Mata de Minas Gerais nos últimos dias transformaram radicalmente a realidade de diversas cidades. Em Matias Barbosa, município próximo a Juiz de Fora, as ruas ficaram completamente submersas, enquanto comércios foram invadidos pelas águas e os moradores se viram cercados por lama, perdas materiais e um clima de incerteza.
Entre os afetados, está a potiguar Marília Pereira, que deixou o Rio Grande do Norte há cerca de seis meses em busca de uma nova vida no interior mineiro. O que deveria ser uma fase de adaptação se transformou em um pesadelo, com uma sequência de enchentes levando o município à calamidade. Marília relata que, enquanto a população ainda se recuperava dos estragos da primeira inundação, uma nova chuva intensa provocou outro transbordamento do rio que corta a cidade. “Quando parecia que já havíamos passado por uma enchente e era hora de reconstruir, recebemos outra cheia”, contou.
O volume de água registrado na região foi alarmante. Em Juiz de Fora, os dados indicam cerca de 100 milímetros em poucas horas, o que teve um impacto direto em Matias Barbosa. Segundo Marília, o transbordamento do rio acontece rapidamente, atingindo áreas centrais do município. “O rio transborda, alaga tudo, e o que acontece lá também afeta a gente aqui”, explicou.
Prejuízos e Solidariedade em Tempos Difíceis
Apesar de não haver registros de mortes na cidade, os prejuízos materiais são significativos. A principal avenida, onde se localizam bancos, supermercados e o comércio local, voltou a ficar submersa. Em cidades pequenas, essa área geralmente concentra a atividade econômica, e quando para, reflete diretamente na vida da população.
Para Marília, que cresceu em Natal, o cenário ainda é difícil de processar. Ela afirma que nunca havia vivenciado algo desse tipo e relata o peso emocional ao ver amigos e vizinhos perderem móveis e mercadorias. “A cada momento no grupo de amigos, sabemos de colegas que perderam tudo dentro de casa”, revelou.
Embora sua residência não tenha sido atingida diretamente, a situação da família de seu companheiro é preocupante. O restaurante do sogro sofreu danos menores, mas a loja da cunhada foi quase completamente destruída. “Ela perdeu praticamente tudo, ainda não conseguimos calcular o que pode ser recuperado”, contou.
Em meio a essa adversidade, Marília destaca um aspecto positivo: o senso de comunidade característico das pequenas cidades. Ela observa que os moradores se uniram rapidamente para ajudar uns aos outros, formando mutirões de limpeza e organizando doações.
“É aquele lugar onde você pergunta ‘você é filho de quem?’. O apoio aqui é muito comum”, descreveu Marília.
Necessidades Emergenciais e Visibilidade da Situação
Escolas locais foram adaptadas para abrigar as famílias desalojadas, especialmente aquelas dos bairros mais afetados. Além de roupas e alimentos, a comunidade enfrenta uma grande necessidade por materiais básicos de limpeza, como vassouras, luvas e botas. Muitos moradores ainda estão expostos à lama, aumentando o risco de doenças.
Por estar ao lado de Juiz de Fora, onde a situação foi ainda mais crítica, Matias Barbosa acaba ficando em segundo plano na mídia. Marília acredita que é fundamental que a situação local seja reconhecida fora de Minas Gerais, inclusive no Rio Grande do Norte, onde estão seus familiares e amigos. “Matias é uma cidade muito pequena, então a mídia acaba dando mais destaque aos desastres de Juiz de Fora. Mas aqui a situação também é caótica”, afirmou.
Para facilitar a arrecadação de recursos, foi criado um PIX emergencial pelos canais oficiais do município, onde as doações podem ser feitas através do e-mail: emergencialmb@matiasbarbosa.mg.gov.br.
Distante de sua terra natal, Marília observa a reconstrução de uma cidade que está aprendendo a ser seu novo lar. Antes, o desafio era se adaptar a uma nova rotina em outro estado, agora é lidar com a imprevisibilidade da chuva e com a vulnerabilidade que a água expôs.
Entre a saudade do Rio Grande do Norte e o esforço coletivo para reerguer Matias Barbosa, Marília enfrenta uma experiência marcante: viver, mesmo longe de casa, uma tragédia que reformulou completamente o significado de recomeçar.
