Um Retrato da Aldeia Kaingang
“Por Fi Ga” é a denominação que designa a aldeia Kaingang situada no bairro Feitoria, em São Leopoldo, na histórica região do Vale dos Sinos, marcada pela colonização alemã. O termo Kaingang significa “terra da tovaca”, onde “tovaca” refere-se a um pássaro que serve como mensageiro para os guerreiros Kaingang, alertando-os sobre os perigos da floresta. Essa nomenclatura carrega consigo uma parte significativa da memória e da história da comunidade.
O documentário “Por Fi Ga: História e Tradições” fez sua primeira pré-estreia no dia 15 de junho, reunindo membros da aldeia, a equipe de produção, apoiadores e representantes do poder público. A obra revela relatos, memórias e práticas culturais que fazem parte da identidade Kaingang nesta localidade. Mais pré-estreias estão previstas para 2026, com datas a serem anunciadas.
O Objetivo de Documentar
O jornalista e produtor audiovisual Gustavo Carniel Hubert, que dirigiu o projeto, explica que o documentário surgiu da necessidade de registrar e fortalecer a história da comunidade Kaingang. “A produção buscou documentar a trajetória da aldeia e seu reconhecimento perante a sociedade não indígena”, afirmou Hubert. Ele ressalta que o filme retrata o processo de conquista do território, as razões que levaram o povo Kaingang à região e os desafios enfrentados na defesa de seus direitos.
A produção foi realizada em 2025, com apoio da Lei Paulo Gustavo e da Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo. O filme reúne diversas vozes, incluindo a do professor Dorvalino, que acompanharam a formação da aldeia. O processo de criação do documentário incluiu um trabalho próximo à comunidade, com gravações que capturaram aspectos culturais como culinária, música, pintura e a própria ancestralidade Kaingang. “Tivemos a chance de presenciar o preparo do bolo na cinza e ouvir relatos de uma anciã, que transmite conhecimento de geração para geração. O filme é um compêndio dos valores e da educação Kaingang”, complementa Hubert.
Uma Luta por Reconhecimento
O ex-cacique da aldeia e co-diretor do filme, Elton Luiz Nascimento, relata que o projeto foi pensado para unir diversas gerações da comunidade. “A ideia era incluir a juventude, as mulheres e os mais velhos. A presença das crianças também foi garantida através do ensino da língua Kaingang pelo professor Narciso”, conta. Segundo ele, as histórias contadas pelos mais velhos são essenciais para preservar a memória da aldeia.
Elton também recorda sua trajetória pessoal e os desafios enfrentados fora da aldeia, como o racismo e a violência linguística. Ele acredita que a educação é a chave para preparar as crianças da comunidade para os desafios do futuro. Hoje, a Aldeia Por Fi Ga abriga entre 270 a 300 pessoas.
Vozes Femininas e A Luta pela Visibilidade
Entre os participantes do documentário, Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista pelos direitos das mulheres indígenas, destaca a importância de registrar a história através das narrativas indígenas. “Estamos sempre na luta, levando nossa identidade para diversos espaços. Lutamos pela demarcação dos nossos territórios e pela nossa presença nas universidades e na política”, afirma Sueli.
Ela considera o documentário um marco histórico. “Esse filme mostra quem somos e o que representamos, não apenas para nós, mas para toda a sociedade. Vivemos em São Leopoldo e continuamos invisíveis. Precisamos mostrar nossas memórias e nossa ancestralidade”, conclui.
O Impacto da Lei Paulo Gustavo
Patrícia Affonso, representando o Ministério da Cultura no evento, celebrou a pré-estreia e a importância da Lei Paulo Gustavo no fomento cultural. “Essa lei foi uma conquista em tempos difíceis, quando o Ministério da Cultura estava extinto. O audiovisual encontrou novas oportunidades de financiamento”, afirmou Affonso. Ela ressaltou a importância das cotas para comunidades indígenas e outras minorias, elogiando o trabalho da Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo, que tem um cadastro ativo de artistas locais.
A política de apoio à cultura na região está se expandindo, com cerca de R$ 2 milhões recebidos pela cidade através da Lei Paulo Gustavo. Além disso, a representante do MinC frisou a importância de fortalecer a cultura na recuperação após as enchentes de 2024.
Uma Nova Produção e a Voz Indígena
Sueli Khey Kaingang também está envolvida em uma nova produção dirigida por mulheres indígenas, chamada “Mulheres Bioma”, que busca destacar a luta e a representatividade das mulheres indígenas no Brasil. A produção, dirigida pela cineasta Krenak Shirley Krenak, deverá estrear internacionalmente na Alemanha em breve.
Ao refletir sobre o documentário “Por Fi Ga” e as narrativas indígenas, Sueli enfatiza a importância de contar suas próprias histórias. “Antes, nossa história era narrada por outros. Hoje, estamos aqui, contando a nossa versão”, destaca.
Com essa produção, a luta pela demarcação não só dos seus territórios físicos, mas também pela presença nas narrativas audiovisuais, ganha força. Para Sueli, é crucial que a presença indígena nas telas reflita a diversidade e as realidades dos povos.
“Por que não estar nas nossas telas? Precisamos levar nossos símbolos e significados. A tecnologia é uma ferramenta essencial para nós. Estamos aqui, somos parte da cidade e temos histórias a contar”, conclui.
