Uma História de Resistência e Identidade
A aldeia Kaingang, situada no bairro Feitoria, em São Leopoldo, Região Metropolitana de Porto Alegre, é o foco do documentário “Por Fi Ga: História e Tradições”, que explora a rica história da comunidade indígena. A denominação “Por Fi Ga” possui um significado profundo; “por fi” refere-se à tovaca, um pássaro que avisa os guerreiros sobre os perigos na mata, enquanto “gã” significa terra, resultando na expressão “terra da tovaca”. Este título encapsula a essência e o legado do povo Kaingang.
O documentário teve sua primeira pré-estreia no dia 15 de novembro de 2023, reunindo representantes da aldeia, a equipe de produção, apoiadores e membros do poder público. A obra retrata relatos, memórias e práticas culturais que formam a identidade da comunidade, e novas exibições estão previstas para 2026.
Documentar para Reconhecer a História
De acordo com Gustavo Carniel Hubert, jornalista e produtor audiovisual que dirigiu o filme junto ao ex-cacique Elton Luiz Nascimento, o objetivo do documentário é fortalecer e reconhecer a história da comunidade Kaingang. “Buscamos documentar a trajetória de luta pelo território, os motivos que trouxeram este povo à região e os desafios para garantir seus direitos”, explica Hubert.
A produção foi financiada pela Lei Paulo Gustavo e contava com o apoio da Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo. Hubert ressaltou a importância da pluralidade de vozes no filme, incluindo depoimentos de indivíduos que participaram da formação da aldeia, como o professor Dorvalino. O processo envolveu aprofundadas interações com a comunidade e a captura de aspectos culturais, como a culinária e as tradições musicais. “Conseguimos registrar momentos preciosos, como o preparo de iguarias e ensinamentos passados por gerações”, comenta.
Com uma duração de 20 minutos, o filme atende aos requisitos para festivais. Após a exibição na pré-estreia, estão previstas apresentações em escolas públicas e eventos programados para março e abril, próximos à Semana dos Povos Indígenas. Hubert espera que o documentário funcione como uma ferramenta educacional, promovendo a afirmação e o pertencimento da cultura Kaingang.
A Importância da Representatividade
Elton Luiz Nascimento da Costa, ex-cacique da aldeia e co-diretor do filme, enfatiza a missão de unir diferentes gerações da comunidade. “Iniciamos um projeto que trouxe jovens, mulheres e idosos juntos, e essa diversidade foi fundamental para o resultado final do documentário”, destaca. Nascimento acredita que os relatos dos mais velhos são essenciais, pois eles preservam detalhes da história que outras gerações podem não conhecer.
O filme também aborda a experiência de Nascimento em instituições de ensino, onde enfrentou racismo e discriminação linguística. Ele reflete sobre a necessidade de escolas dentro da comunidade, destacando que as crianças precisam estar preparadas para os desafios que encontrarão. Atualmente, a aldeia abriga entre 270 e 300 moradores.
Vozes Femininas e a Luta pela Visibilidade
Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista pelos direitos das mulheres, reforça a importância do registro da história a partir das narrativas indígenas. “Estamos trazendo nossas marcas e artesanatos para todos os espaços. Lutamos não apenas pela demarcação de nossos territórios, mas também na política e na educação”, enfatiza.
Para Khey Kaingang, o documentário representa um marco na visibilidade da comunidade. “Essas imagens mostrarão quem somos e a nossa resistência. É um momento que não é só nosso, mas de toda a sociedade”, afirma. Ela ressalta que a história da aldeia, embora rica, ainda é pouco conhecida na região.
Apoio Governamental e Políticas Culturais
Patrícia Affonso, representante do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, esteve presente na pré-estreia e celebrou o impacto da Lei Paulo Gustavo na cultura local. “A lei representa uma conquista em um momento de desafios para o setor cultural”, disse, destacando a importância das cotas para grupos marginalizados.
According to Affonso, São Leopoldo recebeu quase R$ 2 milhões da Lei Paulo Gustavo, com editais que visam ampliar as oportunidades para a comunidade artística, incluindo indígenas e quilombolas. Ela ressaltou a importância de fortalecer a cultura especialmente após as enchentes que afetaram a área em 2024.
Quebrando Silêncios e Preconceitos
Sueli Khey Kaingang também participa de um novo projeto intitulado “Mulheres Bioma”, que visa destacar a luta e a representatividade feminina indígena. A valorização da voz indígena nas telas é crucial, pois, como afirma Khey Kaingang, “precisamos contar nossas próprias histórias”. Ela critica o preconceito ainda presente na sociedade e enfatiza a necessidade de reconhecimento da presença indígena nas áreas urbanas.
“A presença indígena nas cidades muitas vezes é ignorada. Precisamos romper esses estereótipos e mostrar que estamos aqui, fazendo parte da comunidade”, finaliza Khey Kaingang. A tecnologia, segundo ela, é uma aliada na luta pela visibilidade das vozes indígenas, permitindo novas formas de comunicação e expressão.
