Uma jornada pela memória e identidade da comunidade Kaingang
O documentário “Por Fi Ga” traz à tona a história da aldeia Kaingang, situada no bairro Feitoria, em São Leopoldo, na Região Metropolitana de Porto Alegre. O nome Por Fi Ga traduz-se como a “terra da tovaca”, onde “tovaca” é um pássaro que serve como mensageiro para os guerreiros kaingang, e “gã” significa terra. Essa denominação carrega a rica história e identidade cultural da comunidade.
Na última quinta-feira (15), ocorreu a pré-estreia do documentário, que começou a ser exibido para a comunidade local, reunindo representantes da aldeia, a equipe de produção e apoiadores. O filme explora relatos, tradições e práticas culturais que compõem a essência da identidade Kaingang, com planos para outras sessões de pré-estreia ao longo de 2026.
Documentar para preservar a identidade
Gustavo Carniel Hubert, jornalista e produtor audiovisual, que atuou como diretor do projeto ao lado do ex-cacique Elton Luiz Nascimento, destaca a importância do documentário para o reconhecimento da história da comunidade. “Nosso objetivo foi registrar a luta pela conquista do território e as dificuldades enfrentadas ao longo do processo”, explica Hubert.
Produzido em 2025, “Por Fi Ga: História e Tradições” teve apoio da Lei Paulo Gustavo e da Secretaria Municipal de Cultura de São Leopoldo. O diretor enfatiza a diversidade de vozes incluídas na obra, como a do professor Dorvalino, que contribuíram para a narrativa da aldeia.
O filme foi resultado de um ano de trabalho intenso, incluindo gravações que capturaram aspectos da vida cultural da aldeia, como a culinária, a música, a pintura e a ancestralidade. “Tivemos a chance de documentar o preparo de alimentos tradicionais e as histórias contadas por anciãos”, relata Hubert, ressaltando a riqueza cultural da comunidade.
Uma luta pela educação e pertencimento
Elton Luiz Nascimento da Costa, que também co-dirigiu o documentário, fala sobre a sua visão de unir diferentes gerações da aldeia. “A ideia era incluir jovens, mulheres e idosos no projeto, mostrando a força da nossa comunidade”, comenta. Ele acredita que as narrativas mais antigas são essenciais para entender a formação da aldeia, que começou a se consolidar nos anos 2000.
Nascimento recorda sua vivência escolar, marcada por preconceitos e racismo. “Sofri muito bullying por causa da minha origem. Isso me motivou a lutar por uma educação de qualidade dentro da comunidade”, diz. Hoje, a aldeia Por Fi Ga abriga entre 270 e 300 pessoas, que buscam fortalecer suas tradições.
A força das mulheres Kaingang
Sueli Khey Kaingang, técnica de enfermagem e ativista pelos direitos das mulheres, também é uma voz importante no documentário. Ela enfatiza a relevância de registrar a história a partir das próprias perspectivas indígenas. “Estamos sempre na luta, trazendo nossas marcas e artesanatos para os espaços”, afirma.
Para Khey Kaingang, a produção do documentário é um marco significativo. “Essas narrativas vão ficar registradas e mostrar quem somos”, ressalta, apontando a necessidade de visibilidade e reconhecimento da presença indígena em contextos urbanos. “Muitas vezes, somos invisíveis. Estamos aqui, e precisamos que a sociedade reconheça nossa luta e resistência”, destaca.
Políticas culturais e o futuro das narrativas indígenas
Durante a pré-estreia, Patrícia Affonso, representante do Ministério da Cultura no Rio Grande do Sul, celebrou a importância da Lei Paulo Gustavo para o fortalecimento da cultura local. Ela mencionou que São Leopoldo recebeu significativos recursos para apoiar projetos culturais, incluindo os que beneficiam comunidades indígenas e quilombolas.
A participação de Sueli Khey Kaingang em outro projeto, o filme “Mulheres Bioma”, dirigido por cineastas indígenas, é uma prova de que as histórias estão sendo contadas por suas próprias vozes. “Hoje, não aceitamos mais que falem por nós. Precisamos ser ouvidos e ter nossas histórias contadas por nós mesmos”, conclui.
Assim, “Por Fi Ga: História e Tradições” não é apenas um documentário, mas uma ferramenta de afirmação cultural, que busca educar a sociedade sobre a rica herança dos povos indígenas e sua luta por reconhecimento e direitos.
