Lideranças Yanomami em Alerta
BOA VISTA (RR) – A dor da perda é intensa na comunidade Yanomami. Edivania Yanomami enfrentou a tragédia de perder sua filha de apenas quatro meses no dia 10 de fevereiro, devido a complicações provocadas pela coqueluche. A pequena, residente da comunidade Arasiki, na região de Surucucu, foi transferida junto à mãe para o Hospital da Criança, em Boa Vista, mas não conseguiu sobreviver à gravidade da infecção respiratória. Tragicamente, ela é uma das três crianças que faleceram devido à doença entre 1º de janeiro e 19 de fevereiro deste ano, conforme apontam os dados oficiais.
O jornal Estadão teve acesso a atestados de óbito que revelam que a maioria das vítimas era composta por bebês. Um dos documentos analisados indicava que uma criança ainda tinha apenas um mês e 17 dias de vida.
Em resposta ao surto, o Ministério da Saúde divulgou uma nota informando que reforçou as equipes de saúde na região. Segundo o órgão, foram enviados médicos, técnicos de enfermagem, enfermeiros e socorristas, além de especialistas do Programa de Treinamento em Epidemiologia Aplicada aos Serviços do SUS (EpiSUS), com o intuito de conter possíveis surtos e auxiliar na assistência à comunidade Yanomami em Surucucu.
A nota do ministério também detalha que estão sendo realizadas buscas ativas e coletas de material para análise clínica. Todos os pacientes com suspeita de coqueluche e aqueles que tiveram contato com eles estão sendo monitorados e tratados. Até agora, foram registrados oito casos confirmados da doença, resultando em três óbitos, conforme a nota oficial.
Dados Alarmantes e Preocupações com o Futuro
Procurado, o Ministério dos Povos Indígenas indicou que seria mais apropriado buscar informações sobre a situação junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai). Entretanto, lideranças indígenas expressam preocupações de que o número de mortes por coqueluche pode ser ainda maior do que o divulgado. Estimativas sugerem, pelo menos, cinco mortes somente em 2026, tanto na capital quanto nas aldeias. O Boletim Epidemiológico da Secretaria de Saúde registra 31 casos notificados e 12 confirmados.
“Essas crianças não tiveram a chance de conhecer o mundo. Elas nasceram, e as mães estão devastadas. O futuro dessas crianças foi interrompido. Estamos muito preocupados”, desabafou Waihiri Hekurari, que já foi conhecido como Júnior Hekurari Yanomami e atualmente preside a Urihi Associação Yanomami.
Coqueluche: Uma Ameaça Letal para Comunidades Isoladas
A coqueluche, também chamada de tosse comprida, é uma infecção bacteriana provocada pela bactéria Bordetella pertussis, que atinge diretamente o aparelho respiratório, comprometendo traqueia e brônquios. A pediatra Alana Zorzan, cofundadora da plataforma Mini Löwe, alerta que a doença se manifesta por “crises de tosse seca e intensa, que podem dificultar a respiração”.
Após essas crises, é comum o paciente emitir um som agudo ao tentar puxar o ar, semelhante a um “guincho”, e, em casos mais graves, pode ocorrer a cianose, quando a oxigenação do sangue é prejudicada.
De acordo com Alana, os bebês com menos de seis meses estão entre os mais vulneráveis, pois ainda não completaram o esquema vacinal com a DTP (tríplice bacteriana infantil), podendo enfrentar apneias e pausas na respiração. “É um grupo de altíssimo risco”, alerta a especialista.
Ela ainda enfatiza que o Brasil atravessa um momento crítico devido à queda na cobertura vacinal, e o surto na Terra Indígena Yanomami não é um fenômeno isolado. É um reflexo da baixa imunização, da insegurança nutricional e da movimentação de não indígenas no território. Indiretamente, a médica menciona que o garimpo ilegal facilita a introdução de doenças respiratórias, e as comunidades isoladas possuem pouca memória imunológica, o que pode ser fatal para essa população. Essa análise ressalta a urgência de ações de saúde mais efetivas para proteger as comunidades indígenas e garantir um futuro seguro para suas crianças.
