Mudanças nas Rotas de Contrabando de Ouro
O contrabando de ouro no Brasil ganhou um novo eixo no estado de Roraima, que se firmou como um importante ponto de saída do metal precioso do país. A Polícia Federal (PF) monitorou essa mudança nas rotas do ouro ilegal, resultando em diversas apreensões decorrentes de operações conjuntas com a Polícia Rodoviária Federal (PRF) em localidades como Boa Vista e nas estradas estaduais.
Historicamente, garimpeiros extraíram enormes quantidades de ouro de terras indígenas, especialmente da Terra Indígena Yanomami, enviando o metal para outros estados brasileiros, que frequentemente serviam como porta de saída para o exterior. Contudo, dados recentes da PF indicam que esse fluxo sofreu uma alteração significativa.
“Identificamos uma mudança na rota do ouro. O estado de Roraima está funcionando como um ponto de passagem para outros países”, destacou Caio Luchini, delegado da Polícia Federal que atua no combate a crimes ambientais na região.
Apreensões Revelam o Novo Cenário do Contrabando
Um dos episódios mais notáveis aconteceu no dia 2 de dezembro do ano passado, quando a PF, em parceria com a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), aguardava a chegada de um avião sob vigilância. A expectativa era que o pouso ocorresse na Fazenda Timbó, uma pista destinada a pequenas aeronaves nas proximidades de Boa Vista. No entanto, a aeronave alterou sua rota e aterrissou no Aeroporto Internacional de Boa Vista.
A manobra atraiu a atenção dos agentes, que enviaram uma equipe para o aeroporto, onde encontraram 51 kg de barras de ouro sem documentação que comprovasse a origem da carga. O valor estimado desse material atingiu a cifra de R$ 37 milhões. Durante os depoimentos, os ocupantes da aeronave afirmaram que carregaram o ouro em Itaituba, no Pará, uma cidade reconhecida como um dos principais pontos de transbordo do metal extraído de terras indígenas. Contudo, eles não revelaram quem eram os proprietários da carga.
Dados Alarmantes sobre Apreensões e Tráfico Internacional
As informações da PRF corroboram a nova dinâmica das rotas de contrabando. Entre 2024 e 2025, o volume de ouro apreendido nas estradas de Roraima aumentou em 368%, de acordo com investigações da PF. Estes dados indicam que uma parte considerável do ouro extraído ilegalmente da Terra Yanomami não abastece apenas o mercado nacional, mas também o internacional, com registros de exportações para países na Europa, Ásia e Estados Unidos.
A Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil, abriga aproximadamente 33 mil indígenas e representa um importante espaço de preservação. O garimpo, no entanto, tem impactos devastadores sobre a região e suas comunidades.
O Legado do Garimpo na Cultura Local
A força histórica do garimpo em Roraima é evidente até na paisagem urbana. Um dos marcos turísticos de Boa Vista é o Monumento do Garimpeiro, uma imponente estátua de concreto construída na década de 1960, que homenageia as milhares de pessoas que, em busca de ouro, migraram para a região. Essa estátua, com mais de sete metros de altura, simboliza a relevância do garimpo na formação econômica e cultural do estado.
A Rota do Ouro e o Desafio da Legalização
Para que o ouro extraído alcance o mercado formal, ele passa por processos de “esquentamento”, onde notas fiscais fraudulentas são emitidas. Segundo as autoridades, o ouro extraído em Roraima é enviado para estados onde organizações criminosas utilizam uma estrutura burocrática para lavar o metal. Através de falsificações documentais, o ouro é posteriormente comercializado dentro do Brasil ou exportado.
“Nos últimos anos, realizamos operações que revelaram o envio de ouro para São Paulo, Pará e Rondônia, onde o processo de esquentamento acontecia com a confecção de documentações fraudulentas, permitindo que o metal fosse livremente comercializado”, afirmou Luchini.
Desafios e Investigações em Andamento
Nos últimos dois anos, investigadores e especialistas notaram a alteração nas rotas do ouro clandestino e o novo papel de Roraima como uma porta de saída do país. “Diversas apreensões de ouro provenientes do Amazonas e de Rondônia, regiões com forte presença de garimpos ilegais, além do Pará, foram realizadas”, revelou Marcus Vinícius de Almeida, diretor nacional de operações da PRF.
No entanto, Milena Coutinho, delegada da PF que lidera o Setor de Repressão a Crimes contra os Recursos Minerais e de Poluição, observa que ainda não foram encontrados indícios de facções criminosas operando nesta nova rota. “Embora a investigação esteja em andamento, seria prematuro fazer afirmações definitivas neste momento”, disse.
Para a delegada, três fatores são cruciais na transformação do fluxo do ouro clandestino: o aumento da repressão ao garimpo na Terra Indígena Yanomami, novas medidas que dificultam a legalização do ouro e a intensificação da fiscalização, especialmente após a crise humanitária que afetou a comunidade Yanomami. Imagens de crianças e idosos em situação de desnutrição, atribuídas ao avanço do garimpo, repercutiram em todo o país.
Com a instalação da Casa de Governo em Boa Vista, o governo federal intensificou os esforços para combater o garimpo ilegal e oferecer assistência aos Yanomami. Dados recentes do Ministério do Desenvolvimento mostram que as exportações de ouro caíram de 96 toneladas em 2022 para 66 toneladas em 2025, uma redução significativa de 31%, evidenciando os impactos das ações de repressão ao garimpo ilegal.
