Conflitos e Desinformação no Território Indígena
Na manhã desta terça-feira, 24 de fevereiro, a comunidade indígena Pataxó foi surpreendida por uma série de ataques que cercaram as estradas de acesso ao distrito de Corumbau, no município de Prado, extremo sul da Bahia. Fazendeiros de extrema direita, utilizando motos, veículos e até helicópteros, realizaram uma manifestação que culminou em violência. Informações alarmantes relatam que disparos feitos por pistoleiros atingiram duas turistas que se dirigiam às praias. Além disso, um sequestro de uma família indígena foi confirmado.
Autoridades e entidades ligadas aos direitos humanos exigem imediata proteção para os povos indígenas e a população da região, bem como uma investigação rigorosa sobre esses incidentes. A situação se agrava ainda mais pela difamação que circula nas redes sociais, com notícias falsas que buscam confundir a opinião pública sobre os eventos recentes.
Demarcação e Impunidade: O Contexto da TI Comexatibá
A Terra Indígena Comexatibá foi oficialmente reconhecida no final do ano passado e aguarda o avanço do processo demarcatório. A inação do Estado em garantir os direitos dos indígenas é um dos principais fatores que levam à impunidade dos invasores em terras indígenas. Em uma carta aberta, as lideranças da TI Comexatibá expressaram seu repúdio aos ataques e esclareceram a situação.
A carta, que foi divulgada no mesmo dia dos incidentes, relembra que a Terra Indígena Comexatibá foi declarada de posse permanente do povo Pataxó em novembro de 2025, através da Portaria nº 1.073, após uma longa luta pelo reconhecimento dos direitos territoriais. No entanto, mesmo com a declaração oficial, a demarcação física e a retirada de ocupantes não indígenas ainda não foram finalizadas, deixando a comunidade em uma posição vulnerável.
Violência e Responsabilidades
Os relatos de violência na TI Comexatibá são alarmantes. No dia 24 de fevereiro, ocorreram diversos ataques, incluindo uma ação na Fazenda Bela Vista e ameaças na Fazenda Barra do Cahy. O sequestro de uma família indígena durante a retomada da terra foi um dos pontos mais críticos da situação. Além disso, informações ainda em apuração indicam que turistas foram feridas devido a disparos no litoral, um evento que, de acordo com as lideranças, não foi causado pelos indígenas.
O Coletivo de Lideranças Indígenas destacou que as narrativas de que os disparos foram feitos por membros da comunidade são amplamente distorcidas e servem apenas para criminalizar o movimento indígena. A escalada de violência é atribuída a grupos organizados, com interesses privados, que lutam para deslegitimar a luta dos Pataxó e confundir a opinião pública.
Manipulação e Divisão Interna
As lideranças Pataxó também mencionaram a atuação de fazendeiros que têm manipulado lideranças de comunidades vizinhas, como a TI Águas Belas e a aldeia Tawá, para criar divisões internas. Essas manobras têm resultado em conflitos e desconfiança entre os próprios indígenas, prejudicando a luta coletiva pelo reconhecimento e pela proteção dos seus territórios. O uso de narrativas distorcidas, promovidas por agentes externos, tem fortalecido a presença de ocupações ilegais na área.
Apelo por Justiça e Proteção
Na carta aberta, os líderes reafirmaram seu repúdio a toda forma de violência e seu compromisso com a defesa da vida, integridade física e dignidade do povo Pataxó. Eles exigem que as autoridades investiguem os episódios violentos com total transparência e imparcialidade. Há uma necessidade urgente de combater as narrativas que criminalizam o movimento indígena e reconhecer a responsabilidade de grupos externos, especialmente fazendeiros, nas situações de violência e desinformação.
O apelo por medidas emergenciais de proteção às comunidades indígenas da TI Comexatibá, bem como a necessidade de esclarecimentos sobre os eventos recentes, foram enfatizados no documento, que representa a resistência e a luta pela manutenção dos direitos e da história do povo Pataxó.
O Coletivo de Lideranças Indígenas da Terra Indígena Comexatibá, reafirmando seu compromisso com a justiça e a verdade, encerrou a carta com a determinação de continuar firme na defesa dos direitos constitucionais e culturais do seu povo.
