Uma Tradição que Renova Saberes
A Floresta Nacional de Canela, localizada na Serra Gaúcha, será palco da segunda edição da Carijada Kaatártica, que ocorre de 27 de fevereiro a 1º de março. Este evento é uma vivência dedicada ao método artesanal indígena de processamento da erva-mate, idealizado pelo Coletivo Catarse, com o apoio do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e das retomadas kaingang Gah Ré, de Porto Alegre, e Kógünh Mág, de Canela. A Carijada visa resgatar e valorizar saberes tradicionais que antecedem a industrialização da erva, estreitamente ligados à cultura do chimarrão, do tererê e do chá mate no Sul do Brasil.
A Floresta Nacional de Canela abrange mais de 500 hectares e é uma unidade de conservação federal voltada à proteção da Mata Atlântica, permitindo o uso sustentável dos recursos naturais. Essa particularidade a diferencia dos parques nacionais, pois permite atividades como pesquisa e educação ambiental, desde que respeitada a conservação dos ecossistemas.
De acordo com o Instituto Chico Mendes, a autorização para a realização da carijada foi concedida, uma vez que o manejo da erva-mate por meio da poda não compromete o desenvolvimento das árvores e, em algumas circunstâncias, pode até estimular o crescimento.
Vivência do Processo Tradicional
Ao longo dos três dias de programação, os participantes terão a oportunidade de vivenciar todas as etapas do processamento tradicional da erva-mate. Isso inclui desde o manejo dos ervais nativos até a secagem, moagem e partilha da erva. A atividade se desenvolve em uma área de aproximadamente 250 hectares de mata nativa, onde a presença da espécie Ilex paraguariensis é natural.
As inscrições para o evento estão disponíveis por R$ 25 e podem ser realizadas por meio de um formulário online.
Patrimônio Cultural em Destaque
A carijada representa um método ancestral de secagem da erva-mate, realizado com o calor de um braseiro. Durante o processo, as folhas e galhos são submetidos ao sapeco, um contato rápido com o fogo que interrompe a oxidação, antes de serem dispostos em uma estrutura elevada, conhecida como carijo. A secagem é um processo lento, que dura pelo menos 12 horas, utilizando o calor de um fogo de chão. O resultado é uma erva com um sabor intenso, semelhante à forma consumida historicamente pelos povos indígenas do Sul do Brasil.
Estudos indicam que o consumo da erva-mate remonta a períodos anteriores à colonização europeia e está profundamente vinculado aos povos originários da região sul-americana, como Guarani e Kaingang. No século 19, a expansão do mercado de erva-mate promoveu transformações significativas no processamento, resultando na industrialização e padronização. O método do carijo, embora tenha se mantido em algumas comunidades rurais e indígenas, perdeu espaço para a produção em larga escala.
Registro e Valorização de Saberes
O Coletivo Catarse, atuando há mais de uma década na promoção do conhecimento tradicional, já organizou diversas edições da carijada. A 12ª edição é uma oportunidade de fortalecer a memória cultural e consolidar a carijada como patrimônio imaterial. Entre os projetos desenvolvidos, destaca-se “Carijo: Herança do Conhecimento Ancestral na Fabricação Artesanal da Erva-Mate”, que resulta em um documentário, um livro e uma cartilha técnica sobre o processo artesanal.
Os organizadores ressaltam que, embora a carijada ainda não tenha registro formal como patrimônio imaterial, iniciativas como esta buscam documentar e dar suporte a futuros reconhecimentos.
Educação e Sustentabilidade em Foco
Para o Instituto Chico Mendes, esse evento, realizado em uma unidade de conservação, cumpre um papel educativo fundamental. Atividades que promovem a conservação ambiental e valorização cultural são essenciais para aproximar a sociedade da gestão das áreas protegidas, desde que respeitados os critérios de sustentabilidade.
A erva-mate, uma espécie nativa da Mata Atlântica que pode atingir até 15 metros de altura, beneficia-se de podas periódicas que mantêm a planta produtiva por décadas. Especialistas em agroecologia afirmam que, quando realizado de forma controlada, o manejo em áreas de floresta nativa pode equilibrar a geração de renda e a conservação da biodiversidade.
O evento será realizado como uma vivência prática, onde os participantes irão experimentar coletivamente a construção do carijo, colheita, sapeco, secagem e moagem da erva. As inscrições são pagas e incluem alimentação e espaço para acampamento. Esta atividade faz parte do Projeto Ponto de Cultura e Saúde Ventre Livre, que conta com incentivo da Secretaria de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul.
Valorização Cultural e Territorial
Para as comunidades kaingang Gah Ré e Kógünh Mág, a realização da carijada é uma afirmação de identidade cultural e territorial. As lideranças indígenas argumentam que práticas tradicionais como a do carijo envolvem não apenas técnicas produtivas, mas também relações profundas com a floresta, o tempo e a coletividade.
Com um mercado de erva-mate que movimenta milhões de reais anualmente, o Brasil, especialmente o Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, se destaca como um dos principais produtores da planta. Apesar disso, a maior parte da produção é destinada ao processamento industrial.
A Carijada Kaatártica, portanto, surge em um contexto de valorização das práticas tradicionais que dialogam com a conservação ambiental e a identidade cultural, reunindo indígenas, comunicadores, pesquisadores e interessados. Ao final da vivência, a erva produzida será moída e compartilhada entre os participantes, simbolizando a continuidade de um patrimônio cultural vivo e a preservação da chama do fogo de chão que sustenta o carijo.
Programação Completa do Evento
27/02 – Sexta-feira – Montagem do carijo e do sapeco
13h – Receptivo
14h – Construção do carijo com materiais coletados
17h – Montagem do cancheador
28/02 – Sábado – Colheita, sapeco e ronda
9h – Manejo dos ervais nativos
13h – Sapeco
17h – Encarijamento e ronda
01/03 – Domingo – Moagem e distribuição
9h – Retirada da erva do carijo, cancheamento e soque
14h – Partilha da erva-mate e despedida
