A Cigana Terena e Sua Marca na Cultura Local
Flores frescas, velas acesas e garrafas de vinho. No Cemitério São Francisco de Paula, em Pelotas, um túmulo chama a atenção dos visitantes. Ele pertence à Cigana Terena, cuja lápide se destaca pela beleza e cuidados, sempre rodeada por pessoas em busca de proteção e bênçãos. Mais de um século após sua morte, sua presença permanece viva entre os pelotenses, que a consideram tanto uma figura histórica quanto uma santa popular.
A Cigana Terena, segundo relatos, foi uma mulher real que se integrou a um grupo cigano que chegou a Pelotas no final do século 19. Porém, com o passar dos anos, seu nome se entrelaçou a pedidos de emprego, saúde, amor e até questões judiciais. Existem também histórias que falam sobre uma maldição que ela teria lançado sobre a cidade.
Documentos Históricos e Memória Coletiva
As pistas sobre a vida da Cigana Terena são escassas. O historiador Adão Fernando Monquelat, que dedicou parte de sua vida a investigar a história local, é uma das principais fontes de informação. Seus estudos, publicados em jornais e no blog Pelotas de Ontem, continuam a ser referência para muitos que buscam entender a trajetória dessa enigmática figura. Embora tenha falecido em 2021, seu legado persiste nas investigações sobre a memória cultural de Pelotas.
Os registros históricos indicam que um grupo liderado por João Caldaras, marido de Terena, chegou à cidade em 1882. A cigana, já doente, faleceu em março de 1883, poucos meses após a chegada. O professor Maurício Albuquerque, especialista em história, ressalta que a documentação sobre ela termina abruptamente nesse ponto, o que leva muitos a confiar na tradição oral.
Segundo relatos, o funeral de Terena foi marcante, atraindo uma grande multidão e descrito como luxuoso para a época. Essa grande mobilização sugere que ela gozava de prestígio na comunidade local, o que é um indício de sua relevância.
A Influência Pessoal de Terena na História de Pelotas
O interesse de Maurício pela Cigana Terena começou em sua infância, quando a mãe compartilhava histórias sobre ela. Após vivenciar uma separação difícil, sua mãe faria pedidos no túmulo de Terena, atribuindo a ela graças em trâmites judiciais. Com o passar dos anos e a formação acadêmica, ele decidiu aprofundar seu estudo sobre a figura.
“Terena representava uma carga emocional muito forte para mim”, conta Maurício. A repercussão de seus vídeos sobre a cigana nas redes sociais revelou a devoção de muitas pessoas, que compartilhavam suas experiências com a figura mítica.
Transformação da Lenda em Símbolo de Esperança
Uma narrativa popular afirma que, antes de morrer, Terena teria amaldiçoado Pelotas por não ter recebido atendimento médico. No entanto, essa versão carece de documentação que a confirme. “Lendas não têm certidão de nascimento”, observa Maurício, ressaltando a natureza mutável das histórias.
Com o tempo, a imagem de Terena passou de figura associada à desgraça econômica para um símbolo quase religioso de proteção. Atualmente, muitos a buscam para agradecer, fazer promessas ou pedir ajuda.
Devoção Transformada em Identidade
No Dia de Finados, o movimento em torno do túmulo da Cigana Terena cresce. Velas, flores e bilhetes manuscritos se acumulam, e ela se torna o túmulo mais florido do cemitério, segundo Jaqueline Santos, vendedora de flores local. Muitos vão até ali por tradição familiar, repetindo um ritual que passa de geração para geração.
Um exemplo dessa devoção é a história de Terena Angel de Fátima Cruz Rodrigues, de 32 anos, que carrega o nome da cigana devido a uma promessa feita por sua mãe durante uma gestação arriscada. “Meus médicos disseram que eu tinha pouquíssimas chances de nascer. Minha mãe fez a promessa e cumpriu”, conta Terena, que considera a cigana sua madrinha espiritual.
Cigana Terena: Patrimônio Imaterial de Pelotas
Independentemente de crenças, a figura da Cigana Terena emergiu como parte do patrimônio imaterial de Pelotas. Segundo Maurício, a história dela fala sobre a identidade e a memória coletiva da cidade. Entre flores, promessas e silêncios, a Cigana Terena continua a ser um símbolo de amparo e esperança, aproximando-se da espiritualidade e da dor vivida por muitos.
