A Conflitos e Transformações Políticas em um Século de História
No mês de fevereiro de 1926, Palmeira dos Índios, um município alagoano, chegou a um marco histórico: o centenário de um dos períodos mais conturbados de sua trajetória. Esse mês em especial não apenas refletiu as tensões locais, mas também foi emblemático para o Brasil, mergulhado nas dificuldades da República Velha, onde o coronelismo dominava o panorama político, e as disputas eram frequentemente resolvidas através da violência. No cerne dessas tensões estava a temida Coluna Prestes, que permeava os ânimos do interior, e a presença notória do cangaço, que ameaçava a segurança das comunidades.
Nas semanas que antecederam os acontecimentos, a cidade foi palco de boatos sobre guerras, requisições forçadas, intrigas políticas e a movimentação de tropas, enquanto Lampião rondava as imediações. O escritor Graciliano Ramos, em uma correspondência de 1926, descreveu a situação como uma “chusma de calamidades”, referindo-se a crises e atrocidades que assolavam a região. Dentro desse turbilhão, o assassinato do prefeito Lauro de Almeida Lima – hoje homenageado através da Praça que leva seu nome – desmantelou a já frágil normalidade institucional.
A crise que se seguiu ao assassinato foi marcada por atos de vingança e intervenções políticas. O desfecho dessa turbulência foi a inesperada eleição de Graciliano para a prefeitura de Palmeira dos Índios, um evento que mudaria para sempre a memória política e cultural da cidade.
Um Prefeito Entre Obras e Conflitos
Na década de 1920, o coronel Lauro de Almeida Lima desempenhava um papel central na política de Palmeira dos Índios. Como comerciante, ele começou sua trajetória com uma loja de tecidos e mais tarde abriu um armazém de cereais. Caracterizado como uma figura de destaque, era conhecido por seu automóvel Ford e seu estilo de vida que chamava a atenção. Sua gestão à frente da prefeitura, de 1919 a 1921, foi marcada por uma série de obras que trouxeram progresso à cidade, como o Paço da Intendência, escolas, um açougue público e a urbanização da Praça Moreno Brandão.
A implementação do sistema de abastecimento de água potável foi uma das suas contribuições mais significativas, um projeto que foi essencial para a cidade na época. Contudo, seu governo também foi permeado por um caráter autoritário típico dos coronéis, que não hesitavam em se envolver em confrontos. Lauro não era estranho à violência política, tendo sobrevivido a uma tentativa de assassinato em 1919. Conflitos com outros líderes locais, como o promotor Olival Lins, apenas intensificaram um clima de hostilidade que culminaria em sua trágica morte.
O Estopim da Violência
O ano de 1926 trouxe uma nova dimensão ao conflito entre Lauro e o coletor estadual João Ferreira de Gusmão e Melo, nomeado pelo governo estadual. A postura rígida de Gusmão em relação aos feirantes da cidade gerou um clima de revolta. O incidente que levou ao assassinato do prefeito ocorreu em um dia comum, quando Lauro decidiu prender o dentista Emílio Perdigão, um associado de Gusmão. O que parecia ser uma simples detenção rapidamente se transformou em um confronto violento. O prefeito, ao tentar reagir, foi fatalmente atingido por Gusmão, que fugiu do local, enquanto o corpo de Lauro era retirado por seus aliados.
Consequências e Impunidade
O assassinato de Lauro de Almeida Lima teve repercussões devastadoras. A instabilidade política se instalou, e a busca por justiça rapidamente se tornou um ciclo de vingança. O filho do prefeito, Laurinho, e outros cidadãos formaram um grupo para caçar Gusmão, que foi encontrado e brutalmente assassinado. Apesar do inquérito que se seguiu, a impunidade prevaleceu, com a maioria dos envolvidos isentos de pena, refletindo a desordem política da época.
Transformações Políticas e a Ascensão de Graciliano Ramos
Com a morte de Lauro, a figura do vice-prefeito Juca Sampaio assumiu temporariamente o cargo, mas a sombra do assassinato pairava sobre o futuro político da cidade. A falta de candidatos dispostos a enfrentar a instabilidade levou à reestruturação das forças políticas locais, culminando na candidatura de Graciliano Ramos. Inicialmente relutante, Graciliano acabou se tornando o único candidato e foi eleito em 1927, marcando um novo capítulo na história de Palmeira dos Índios e contribuindo para sua transformação social e política.
Assim, o turbulento fevereiro de 1926 não apenas resultou na morte de um líder, mas, paradoxalmente, também pavimentou o caminho para a ascensão de uma nova liderança, que se tornaria emblemática na literatura e política brasileira. Neste centenário, a memória desse período nos convida a refletir sobre as complexas relações de poder e violência que moldaram o sertão alagoano.
