Inovação Tecnológica com Raízes Ancestrais
A preservação cultural dos povos indígenas agora é impulsionada pela inovação tecnológica, graças ao empenho de mulheres de diversas etnias. Elas se uniram para desenvolver a Inteligência Artificial (IA) Arandu, que significa ‘sabedoria’ em tupi-guarani. A Arandu faz parte da plataforma Círculos Indígenas, uma iniciativa que atua como uma verdadeira guardiã digital, reunindo valores, saberes e tradições dos povos originários do Brasil.
Neste espaço, as participantes têm a oportunidade de produzir, editar e distribuir conteúdos, além de registrar saberes tradicionais em formato digital. A plataforma também se destina à comercialização de produtos e criações provenientes das aldeias, promovendo, assim, a autonomia econômica dessas comunidades. Essa iniciativa coletiva, que começou a ser desenvolvida em 2025 através de uma convocação da ONG Recode, visa fortalecer redes de apoio entre mulheres indígenas, preservar conhecimentos ancestrais e amplificar suas vozes, integrando a tecnologia de forma que respeite as tradições.
Uma Rede de Apoio em Diversos Estados
Atualmente, o grupo de mulheres está presente no Distrito Federal e em 12 estados brasileiros, incluindo Acre, Amazonas, Bahia, Maranhão, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e Tocantins. A meta ambiciona alcançar 240 participantes até 2026. Com as inscrições para a terceira turma já abertas, há 160 novas vagas disponíveis.
Rodrigo Baggio, fundador e CEO da ONG Recode, destaca a importância dessa ação: “As mulheres indígenas enfrentam barreiras estruturais de acesso à tecnologia, oportunidades econômicas e meios de comunicação. Este movimento é uma resposta a essa realidade, garantindo que suas vozes sejam protagonistas de suas narrativas”. O grupo conta com representantes de diversas etnias, como Pataxó, Guajajara, Terena e Kaxinawá, fortalecendo uma rede diversificada de comunicadoras de diferentes territórios, línguas e tradições.
Vozes Que Contam Histórias
Uma das vozes que se destaca nesse contexto é a de Júlia Tainá, 38 anos, natural do Acre. Para ela, a iniciativa representou uma oportunidade de reconexão com sua própria história e de criação de um espaço seguro para se expressar. Ela compartilha: “Dos meus quatro avós, três eram indígenas. Nasci em um contexto urbano, não por escolha, mas por conta da trajetória da minha família. Com este projeto, sinto que pertenço a um território virtual onde posso me comunicar livremente”. Júlia acredita que essa vivência transforma a relação das mulheres indígenas com a tecnologia, permitindo que utilizem a IA para estruturar suas ideias e narrativas de maneira autêntica.
Promovendo Autonomia e Renda
Na plataforma Arandu, as participantes possuem acesso a ferramentas intuitivas que facilitam a criação, edição e distribuição de conteúdos em diversos formatos, como textos, vídeos e áudios. Além disso, também funciona como um acervo digital para registrar e valorizar saberes tradicionais, sempre respeitando os contextos culturais. Um dos grandes diferenciais é a geração de renda, através de um e-commerce que está em desenvolvimento, onde será possível comercializar produtos e conteúdos criados nas aldeias. A Arandu ainda oferece suporte na tradução entre línguas indígenas e português, além de sugestões de formatos de conteúdo e análises de engajamento, sempre de maneira ética e supervisionada.
A conclusão de Baggio é clara: “A Arandu representa a convergência entre tecnologia e conhecimento ancestral, provando que é possível criar Inteligência Artificial de forma ética, diversa e que respeite as realidades dos povos indígenas”. Essa abordagem inovadora pode ser um modelo inspirador para futuras iniciativas que busquem a valorização e a preservação das culturas tradicionais, utilizando a tecnologia como aliada.
