Desafios e Implicações das Concessões nas Hidrovias Amazônicas
A discussão sobre as concessões de rios na Amazônia, especialmente em relação aos interesses dos povos indígenas, levanta questões cruciais sobre o desenvolvimento e a preservação cultural na região. O professor Augusto Cesar Barreto Rocha destaca que os estudos em curso para a concessão desses recursos hídricos não apenas parecem incoerentes, mas também prejudiciais às economias locais. A experiência já acumulada indica que o modelo de concessão, quando aplicado em áreas menos desenvolvidas, tende a trazer mais danos do que benefícios.
Um exemplo mencionado é a concessão da Rodovia dos Bandeirantes, que, apesar de oferecer boas condições de tráfego e infraestrutura, pode não ser replicável em contextos que carecem de uma base econômica sólida e com um número reduzido de usuários. A tentativa de generalizar esse modelo para outras realidades pode resultar em equívocos significativos.
No caso específico da Amazônia, povos indígenas das margens do Rio Tapajós estão mobilizados para contestar o decreto 12.600/2025, que inclui as hidrovias dos Rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. A transferência do controle de recursos públicos para a iniciativa privada, segundo eles, representa uma desresponsabilização do Estado, algo que pode ser visto como uma violação aos princípios democráticos. Essa questão é especialmente delicada, uma vez que as propostas de infraestrutura frequentemente priorizam interesses externos, em detrimento das necessidades e culturas locais.
Embora a suspensão do processo para uma revisão mais cuidadosa tenha sido anunciada, há receios de que essa ação seja meramente cínica, uma vez que a história de iniciativas em infraestrutura na Amazônia, em sua maioria, não atendeu aos interesses das comunidades locais. Assim, o apoio à luta dos indígenas torna-se essencial. A solidariedade com essas comunidades é um fator chave para qualquer mudança significativa.
Compreender a Amazônia exige uma abordagem diferenciada. A tentativa de aplicar soluções de regiões mais desenvolvidas do Brasil em áreas isoladas é não apenas ineficaz, mas muitas vezes inaceitável. O futuro do país deve ser construído com base na integração de todas as suas regiões, respeitando culturas e modos de vida que têm suas próprias dinâmicas e necessidades. Os estudos para a concessão das hidrovias devem ser ágeis, mas sempre respeitando o tempo e o espaço das comunidades afetadas.
É fundamental que as decisões futuras sejam tomadas com base em um plano logístico que reflita as realidades locais e não as visões externas que, historicamente, têm sido prejudiciais. O que está em jogo vai muito além de uma simples concessão; trata-se da sobrevivência cultural e social de povos que têm muito a ensinar sobre a gestão sustentável de seus recursos.
Por fim, a luta dos povos indígenas na Amazônia é um reflexo de uma batalha maior pela valorização e respeito às diversidades regionais. Ignorar as vozes locais e suas necessidades é uma agressão contínua que transcende questões de infraestrutura e desenvolvimento, e que precisa ser abordada com urgência e seriedade.
