Mobilização Indígena em Defesa dos Rios
Nos últimos 14 dias, centenas de indígenas têm se mobilizado em frente ao terminal portuário da gigante americana Cargill, localizado na região Norte do Brasil, para protestar contra a dragagem e exploração dos rios amazônicos, que consideram essenciais para a preservação de suas culturas e modos de vida. A manifestação ocorre em um momento crítico, onde as comunidades indígenas buscam chamar a atenção do governo e da sociedade para suas reivindicações e direitos.
A liderança indígena Auricelia Arapiuns, em uma mensagem de vídeo enviada à AFP, destacou a gravidade da situação: “O governo tem aberto nossos territórios para muitos empreendimentos, visando apenas impulsionar o agronegócio”. Ela enfatizou que a luta dos indígenas não é recente, tendo sido uma questão levantada também na Conferência Climática COP30, realizada em Belém no ano passado.
De acordo com a organização Amazon Watch, aproximadamente 700 indígenas de 14 diferentes comunidades se uniram na manifestação, que impede a entrada e saída de caminhões no terminal da Cargill. A empresa, em resposta, afirmou não ter controle sobre as demandas dos manifestantes, mas reafirmou sua presença significativa no Brasil, onde emprega cerca de 11 mil pessoas.
Demandas e Reivindicações da Comunidade Indígena
Os manifestantes estão exigindo a revogação de um decreto assinado pelo presidente Lula em agosto, que prioriza a navegação de carga e a expansão de portos privados nos rios da Amazônia. Além disso, pedem o cancelamento de um edital de licitação lançado em dezembro, que visa a dragagem do Rio Tapajós, um importante afluente do Amazonas. “Essa infraestrutura que está sendo proposta não nos inclui e nunca nos incluirá. É um projeto que ameaça a vida dos nossos rios e dos nossos locais sagrados”, declarou a líder indígena Alessandra Korap, do povo Munduruku.
O Ministério de Portos, por sua vez, justificou a dragagem como uma medida necessária para garantir a segurança da navegação e a previsibilidade nas operações de transporte. Contudo, as vozes dos manifestantes se levantam contra essa justificativa, acusando o governo de desrespeitar as promessas feitas na COP30, que estabeleciam a necessidade de consulta prévia às comunidades indígenas sobre qualquer projeto nos rios amazônicos.
Críticas à Resposta Governamental e Riscos Ambientais
Os indígenas lamentaram a falta de diálogo com representantes de alto escalão do governo, afirmando que apenas funcionários de médio escalão têm comparecido às reuniões. “Não queremos apenas consulta, queremos a revogação desse decreto”, afirmou Gilson Tupinambá, um dos líderes presentes na conversa com autoridades governamentais. A crescente insatisfação entre as comunidades é palpável, especialmente diante da percepção de que suas preocupações estão sendo ignoradas.
O Brasil, sendo o maior exportador mundial de soja e milho, tem se voltado para a utilização de portos fluviais na região Norte como uma estratégia para reduzir custos nas exportações. No entanto, o aumento do tráfego nos rios da Amazônia gera uma forte resistência entre os indígenas e ambientalistas, que veem isso como um conflito entre o desenvolvimento econômico e o compromisso governamental com a proteção ambiental.
A líder Auricelia Arapiuns não hesitou em questionar o governo: “O que foi feito após a COP? Lançaram o edital para a dragagem!”, enfatizando a urgência da situação. A mobilização culminou com o bloqueio da estrada que leva ao aeroporto internacional de Santarém, sinalizando a determinação das comunidades em lutar por seus direitos.
O Ministério Público Federal também se posicionou sobre a questão, alertando para os riscos ambientais associados à dragagem, como a liberação de metais pesados na água e a destruição de habitats fundamentais para espécies ameaçadas como botos, tartarugas e aves aquáticas. A situação continua a evoluir, e a luta dos indígenas por seus territórios e pela preservação dos rios amazônicos parece estar longe de chegar ao fim.
